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Capoeira que é bom não cai

09/08/2011

Crédito: Alexandre Miorim

Por Alexandre Miorim
alexandremiorim@gmail.com

Luta, dança, jogo, brincadeira ou ritual… Sua dúvida? Pois era a do capitão-do-mato, confuso ao ver os escravos em roda, tocando berimbaus e tambores, enquanto desenvolviam uma das principais manifestações artísticas já surgidas no Brasil. Mas que luta é essa, em que só se desvia? A Capoeira, que nasceu lá na Bahia e agradece ao pé da cruz, pela roda de todo dia. Aquela que foi criada pelo negro roubado da África, para trabalhar forçado no Brasil Colônia, trazendo de lá valores e sentimentos invioláveis, que fez questão de preservar mesmo na pior condição à qual o ser humano pode ser submetido.

Escondidos da custódia, os escravos se reuniam em baixo das vegetações rasteiras, ou mesmo na senzala de madrugada, e se desprendiam daquela realidade subumana. Exaltavam suas origens, com muita música e expressão corporal. Por alguns momentos, esqueciam-se da angústia, da opressão. Era a manifestação artística na sua maior proporção e intensidade, movida pela ânsia de ser livre.

Olha o nêgo, sinhá… Os brancos não sabiam dizer o que era aquilo. Ora parecia que brincavam, ora parecia que se preparavam para a guerra. Confusos, resumiam que os negros estavam ‘vadiando’. Preocupados, no entanto, proibiram. Castigaram, é claro. Negro que era pego jogando Capoeira ia pro tronco, pra cadeia… Podia até ser mutilado para não repetir. Não adiantou.

Apesar da repressão, a cultura resistiu. Da Bahia a arte se expandiu e se estabeleceu com força em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Hoje a Capoeira é praticada e respeitada no mundo inteiro. A legislação, que a tinha como ilícita até o início do século passado, agora a reconhece como Patrimônio Cultural Brasileiro.

Meia volta daqui, meia volta de lá. Giro seguido de chute, esquiva emendando uma rasteira. O outro pula, vira um ‘aú’ e ressurge do outro lado, já aplicando um novo movimento. Afinal, acerta ou não acerta? Ah, entra na roda pra saber…

Arte marcial 

Para seus interesses patronais, o receio dos senhores de engenho não foi equivocado. ‘Vadeando’ daquele jeito, o escravo aprendeu a se defender melhor dos ataques covardes que sofria a chicotes, espadas e armas de fogo. Ficou difícil recapturar o negro fugitivo no meio da mata. Agilidade e astúcia anulavam as vantagens do agressor, geralmente a cavalo e armado.

Mas há quem diga que, para ser considerada arte marcial, deveria ter sido utilizada em combate internacional, como o Karate, no Japão, e o Taekwondo, na Coréia. Nessa mesma relação está a Capoeira, no Brasil. E a História comprova. Muitos quilombos, como o de Palmares, sobreviveram durante décadas aos constantes ataques armados da Coroa Portuguesa. A resistência foi feita à base da Capoeira. Na Guerra do Paraguai, mais tarde, capoeiristas foram recrutados – muitos à força – para brigar nos pelotões de frente das forças brasileiras. ‘Casca-grossa’, não?!

“Com a África na mente eu vou jogar”

Pra quem tem, sobretudo, a capoeira como filosofia de vida, ‘vadear’ tem hora e local marcados. Assim é para a “Áfricanamente Escola de Capoeira Angola”, de Porto Alegre, e pra outros grupos também da capital, de Canoas, Tramandaí, de todo o Brasil…

Um vasto repertório de rasteiras, chutes baixos, altos, voadores, esquivas impressionantes, paradas-de-mão, giros indescritíveis… “Quero ver mais ‘macacos’ e ‘peões-de-cabeça’”, comenta o Mestre Guto, numa das pausas da roda, exigindo um pouco mais de ousadia da moçada (que já estava tinindo!).

Quando o golpe acerta, um sorriso ou uma brincadeira já eliminam qualquer tensão antes mesmo de ser gerada, e só por parte de quem está de fora. Ali dentro todos sabem que o respeito ao próximo é ordem da casa.  “Pior coisa é machucar o companheiro. Quando tu te machuca é tranqüilo… tu segura a onda sozinho e te recupera. Brabo é ver o irmão ali mal, tendo que se recuperar por aquilo que tu fez”, leciona o Mestre Guto, sobre o jogo e sobre a vida.

Num coleguismo fraternal, a roda durou mais de três horas e terminou com um papo pra lá de cabeça. Humildade, amizade, amor, paz, união… Atitudes e lições que foram cultivadas pelos escravos, mesmo naquele triste período da história brasileira, e que hoje muitas vezes ignoramos.

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