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Racismo no futebol gaúcho

02/08/2011

Por Pedro Heberle
pedro_heberle@hotmail.com

O episódio Zé Roberto evidencia uma desagradável realidade: manifestações preconceituosas são mais comuns do que se pensa no Rio Grande do Sul. Foto: Wander Roberto/VIPCOMM

A história, pelo menos em parte, é conhecida: O Grêmio foi fundado em 1903 e não aceitava jogadores e associados negros, entre outras minorias. O Sport Club Internacional surgiu em 1909 para acolher essas minorias e passou a ser conhecido como o Clube do Povo, atraindo camadas sociais inferiores e hostilidade por parte dos gremistas. O perfil se manteve e até hoje há indícios de manifestações racistas na torcida do Grêmio, embora em sua minoria. Isso seria uma espécie de “versão oficial” da história do preconceito no futebol do RS. A realidade, claro, é muito mais complexa que um parágrafo.

Pois quando o atacante Zé Roberto foi chamado por Falcão para aquecer à beira do gramado do estádio Olímpico, na finalíssima do Gauchão deste ano, se repetiu o episódio de preconceito que tanto a sociedade tenta coibir: os torcedores gremistas imitaram macacos assim que o atacante colorado começou a se movimentar.

Antes de investigar a que faz referência a torcida quando dessas manifestações, façamos uma pequena retrospectiva: recentemente, no futebol gaúcho, tivemos casos de ofensa racial em 2005, quando o colorado Tinga foi chamado de macaco pela torcida do juventude; em 2006, no caso do zagueiro Antônio Carlos, então no Juventude, contra o gremista Jeovânio e em 2009, quando o argentino Maxi Lópes teria chamado o jogador Elicarlos, do Cruzeiro, de macaco. Episódios de racismo no futebol internacional são inúmeros, e têm como vítimas Eto’o, Neymar, Roberto Carlos.

A maioria desses casos envolve a figura do macaco. Há inúmeras versões sobre a gênese do termo macaco como metáfora. A mais corrente entre os torcedores do Grêmio é que macaco faz alusão a “aquele que imita”, pois a torcida do Internacional teria imitado a gremista em cantos, bandeiras, etc. Há, inclusive, outras bem menos fundamentadas: uma conta que durante uma reforma nas arquibancadas do Beira-Rio, os torcedores colorados se penduravam em árvores ao redor do estádio para ver os jogos, o que justificaria o apelido. Não há árvores ao redor do Beira-Rio. Pelo menos, não altas o suficiente para tal fim.

A conotação negativa é antiga. Há muito que a alcunha macaco vem se distanciando do sentido de animalzinho perspicaz capaz de reproduzir gestos humanos. Em lingüística, costuma-se dizer que o uso consagra o termo. Pois macaco parece estar mais vinculado a uma representação pejorativa do negro do que a “alguém que imita”. A primeira conotação é mais forte pois o termo está impregnado no nosso léxico coloquial como um resquício do nosso passado escravagista.

Acontece que o macaco foi abraçado também no Internacional, como forma de reação ao preconceito vindo de fora e de dentro do clube – em um episódio, por exemplo, o árbitro Paulo César de Oliveira foi xingado no Beira-Rio por termos racistas, entre eles macaco. De qualquer forma, algumas partes da torcida passaram a adotar o animal como reação à sua utilização pela torcida adversária.

Há pelo menos três exemplos: um torcedor que se veste como um gorila, uma faixa onde se lê “bem-vindos ao planeta dos macacos” e uma torcida que se intitula macaco (massa cachaceira colorada). E, mais recentemente, a diretoria do Internacional adotou o macaco como mascote, ao lado do Saci (cujo cachimbo, em meio a essa onda politicamente correta, poderia remeter ao crack), e o chamou de “Escurinho”, referência ao ídolo negro dos anos 1970 que passava por dificuldades financeiras e problemas de saúde. O dinheiro acumulado com o mascote foi revertido para Escurinho, mas, a despeito do gesto benevolente, ficou a impressão de que a direção colorada quis esconder a sujeira embaixo do tapete.

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