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Dormindo com o inimigo

27/07/2011

Por Matheus Pairé
paireh@hotmail.com

Foto: Jéferson Bernardes

Graças ao meu desleixo em não ser sócio de nenhum CLUB (graças ao amadorismo familiar em tempos ainda imberbes e bancarrota financeira nesses dias acadêmicos), nem mesmo do SPORT CLUB, entidade porto-alegrense que costumo acompanhar as atividades desde épocas imemoriais com Goicochea à meta e Ricardo a cotovelar narizes tricolores na volância, dando início a arranca-rabos colossais e formadores de caráter, tive a oportunidade de assistir ao embate da quarta-feira de 6 de junho de 2011 entre Inter e Atlético (o Paranaense) sentado à mesa de plástico de um bar. Até aí nada de mais, sendo essa uma prática comum daqueles que, por motivo ou outro, não quiseram ou puderam pôr a bunda na tribuna do José Pinheiro Borda à beira do Rio, não estivesse eu acompanhado de uma dupla de torcedores do rubro-negro paranaense.

Adriano Fernandes, 26 anos, e Carlos Ferronetti, 32, estão em Porto Alegre por motivos familiares e pessoais. Adriano reside aqui e cursa administração na PUC, nasceu em Santo Ângelo, é filho de mãe gaúcha e pai paranaense, o senhor Adalberto Fernandes, que lhe conferiu, por influência direta, a paixão pelo atlético dos paranaenses. “É uma maldição”, diz ele para meu riso, após garantir que estava brincando. “Antigamente íamos juntos no estádio com a torcida, o ingresso era mais barato, não tinha tanta confusão de organizada e pouco problema com a polícia. Hoje em dia parecemos ovelhas”, lamenta. “Quando eu era menor, tenho lembrança de ficar inclusive junto com os gremistas, eu, meu pai e meu tio. Mais contidos, claro, mas nunca deu problema”, conta. Na ocasião em questão, Adriano justificou a ausência não à má fase do time, que no início da oitava rodada, ponteava o brasileirão mas ao contrário, e sim ao monstro do fim do mês, que este jornalista chama de FINDOMÊNSOR, algo como um Mothra ou SATAN GOSS de antigamente.

Carlos Ferronetti, de cigarro em punho desde o início do encontro, mora em Curitiba e está na capital gaúcha “resolvendo missões”, afirma ele. “Não é nada profissional, tenho alguns encontros pra fazer e estou indo embora no fim de semana”. Ele jurou trabalhar com advocacia, não sou ninguém pra questionar, até pela irrelevância para essa pauta. Carlos é amigo (advogado?) da família (Corleone?) de Adriano, e por sorte, muita sorte, entrei em contato com este último através do imortal Orkut, na comunidade do Atlético Paranaense. Abri um tópico questionando se algum torcedor assistiria ao jogo na rua em Porto Alegre para obter três respostas, sendo duas de atleticanos que iriam ao estádio e uma preciosa, a de Adriano. “Foi sorte mesmo. Eu nem sabia se teria companhia pra ver o jogo em algum bar, achei que o Adriano poderia ter ido ao estádio ao estivesse na aula, aí eu ficaria em casa ouvindo a gauchada avacalhar meu time na rádio”, disse Carlos.

O local do encontro foi o bar Fábio’s, que até a final da Libertadores do ano passado se chamava Dolphin’s, ou estava inebriado demais para ter reparado na mudança de nome, na Mariante, exatamente na zona de comemoração das torcidas dos times de Porto Alegre. A cerveja cara (falei) e um Marlboro vermelho horrível temperaram o espetáculo oferecido pelos dois planteis sulinos, afora o frio de renguear. Ao nosso redor, mais três velhos colorados na parte interna, enquanto na parte externa, outras pessoas acompanhavam evento alheio sem relevância para este relato.

Durante o jogo, optei por não intervir com torcedorismos, para observar o que diabos pensam da vida esses adoradores do Paulo Rink do rubro-negro do Paraná. Confesso que antes lhes perguntei:

M: E aquela experiência com o Matthaus?

Adriano: Pf.

Carlos: Estão loucos. Está todo mundo muito louco. Os caras estão loucos.

Bem.

Paulo Baier cobra falta para cabeçada pertinente do zagueiro Manoel e defesa tranquila do arqueiro do Inter:

Adriano: Colorado já se encolheu nesse lance aí.

Carlos: O nosso time é assim ultimamente. É Paulo Baier bate e ou entra, ou alguém desvia e entra, e se não entra o azar é todo nosso, porque ninguém anda fazendo nada certo. Um dia o velho vai se aposentar, e aí? Vão trazer quem?

M: O Paulo Rink…

Carlos: Paulo Rink (risos). É bem capaz de acontecer isso mesmo.

Adriano: Vocês estão jogando com meio estádio?

M: É, estão magalizando o estádio para os turistas da copa.

Adriano: Sim, a Arena até hoje é meio estádio. Não sei se vai ficar pronto a tempo.

Carlos: No remendão é que a copa não vai ser!

Adriano: É, no remendão é que não vai. Mas eu nem sei se a Arena é sede, pra falar a verdade.

M: (fiz cara de paisagem porque também não sabia. Parece que não. Não sei.) Nunca vi time ser campeão com meio estádio.

Carlos: O Atlético foi campeão na Arena. É no mesmo lugar do estádio antigo. Foi inaugurado poucos anos antes.

Mais tarde conferindo, O nome oficial do estádio é Joaquim Américo Guimarães, e está sim, na lista das sedes da Copa do Mundo de 2014.

O Internacional criou um punhado de chances no primeiro tempo. O Atlético chegou na meta conforme o guru Carlos: com um escanteio.

Carlos: É impressionante esse Marcelo Oliveira, o cara deixou passar todas!

Adriano: Kleberson tá com a cabeça no Flamengo. Já jogou no Atlético, sentiu o bafo da Arena e garanto que quando puder vai voltar pro Flamengo.

Carlos: Chegou num ponto que os caras não querem mais jogar no Atlético. Não existe jogador assim. A diretoria não segura ninguém, não planeja nada. E eles também não querem. Não existe mais jogador assim, eles querem é aparecer na tv, mandar beijinho…

Carlos grunhia amarguras até que GOL do Internacional. Comemorei discreto, mas fui abafado pelos demais colorados no bar. Mas esperem aí, o juiz deu falta no goleiro.

Adriano: O time tem só uma jogada e ainda acontece isso.

Carlos: Não, olha ali. Trepou sim.

Adriano: É, trepou, trepou.

Trepou nada. Sátrapas. Que siga o jogo. Cleber Santana erra um passe simples no meio de campo.

Carlos: Mas é brincadeira, olha esse Cleber Santana, é refugo. O Atlético só contrata refugo! Não revela mais ninguém e quer ter time de refugo!

Adriano: O Madson também não tá jogando nada. Quem tinha que vir era o Jobson. Foi pro Bahia. A diretoria do Bahia tem mais visão que a do Atlético.

M: Jobson é um baita atacante.

Adriano: Baita atacante, ia ser ídolo. Hoje não temos nenhum! E deve ser barato ainda.

Apesar do amasso colorado (teve gol, juiz safado, e uma bola na trave), intervalo em zero. Aproveito para perguntar do DT Renato Gaúcho, recém saído de Porto Alegre direto para a casamata do Atlético. R$ 350 mil. Por mês.

Carlos: É uma alternativa. Eu preferia esperar o Carpeggiani… mas qualquer coisa vai ser melhor que o Adilson.

Adriano: Carpeggiani seria melhor.

M: (Aqui interfiri) Mas o Renato tem um perfil motivador, pode ser que arrume o time na base do grito mesmo pra sair dessa zona aviária aí.

Carlos: É, pode ser… o time do Atlético não é ruim. Não é pior que o do Avaí, ou o do Bahia…

Adriano: O Figueirense está bem! Eu não acredito que o Figueirense está melhor que o Atlético.

Carlos: A bem da verdade ainda é cedo. O coxinha mesmo, era a tal da sensação, está se desmantelando…

Adriano: O Coritiba é uma b…..

Recomeça o jogo. Lá pelas tantas, Índio quase faz de cabeça, de pé que não ia ser, não era o Victor no gol.

Adriano: Não, Atlético, não!

Carlos: É… temos que escapar dessa aí.

Bem quando me enfacerei dos atleticanos reconhecendo que o empate era o melhor possível, Paulo Baier quase me faz um gol olímpico, arrancando sons guturais dos amigos.

M: Já me caiu a casa por causa desse velho na Arena ano passado.

Adriano: Paulo Baier bate muito.

Carlos: Mas o problema é que ele já tem, sei lá, 38 anos, e continua sendo o cara do Atlético. Tem que aparecer alguém, sei lá, o filho dele, pra liderar esse time. O coxinha com um time mais ou menos chega seguido bem na Copa do Brasil e o Atlético nem isso.

Quase me compadeci. Damião arma salseiro pela esquerda e cruza. Oscar gol.

Carlos: É descenso, é time pra descenso. É brincadeira. Vamos lutar com o Avaí pelo descenso.

Mais alguns ataques para a agonia agora mais silenciosa e concentrada em cerveja dos atleticanos, e o Atlético combalido era derrotado no Beira-Rio por 1 a 0, em definitivo. Quatro cervejas e alguns cigarros depois, os paranaenses não me pareceram diferentes de colorados, ou flamenguistas ou cruzeirenses ou quem quer que seja. Nelson Rodrigues tem razão em afirmar que somos como soldadinhos, todos idênticos, querendo as mesmas coisas independente do time.

Adriano: Mas que m. São umas bichas.

Bicha é tua mãe.

Ainda perguntei se sabiam algo sobre o projeto Embaixador Furacão feito pelo clube, que hoje possui mais de 20 embaixadas em Estados brasileiros e inclusive no exterior, como na Inglaterra, por exemplo, aproximando os sócios e torcedores do Atlético e assistindo aos jogos em locais fixos. Segundo Adriano, não existe uma embaixada rubro-negra em Porto Alegre e sempre acompanhou as partidas em casa com a família ou até mesmo sozinho, quando não na presença de torcedores adversários dos times da capital ou meros observadores sem envolvimento no embate. Para ele, é difícil passar jogo do Atlético na televisão, e é mesmo.

 

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