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Na mira do doping

19/07/2011

Uso de doping pode afastar César Cielo das piscinas. Crédito: Folhapress

Ana Carolina Farias anafarias.jornal@gmail.com
Raiza Fraga raiza.fraga@yahoo.com.br

Nas últimas semanas, o mundo esportivo foi novamente sacudido por uma bomba que volta e meia explode entre atletas: os casos de doping. Desta vez, os estilhaços atingiram os nadadores brasileiros Henrique Barbosa, Nicholas Santos e Vinícius Waked, e ainda um ídolo: o campeão mundial e medalhista olímpico de natação César Cielo. Os quatro atletas foram flagrados pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) pelo uso da substância furosemida, durante Troféu Maria Lenk, ocorrido em maio deste ano.

A substância é um conhecido diurético, utilizada para perder peso em esportes que exigem pesagem. O educador físico e bioquímico especializado em nutrição esportiva Vandré Casagrande Figueiredo explica que a furosemida é mais comumente ingerida para mascarar o uso de outras substâncias, já que ela não melhora, por si só, o desempenho do atleta. “Dessa forma, ela não é o agente que aumenta a performance ilegalmente, mas sim, o agente que encobriria o uso de um segundo dopante para, esse sim, aumentar a performance esportiva. Assim, o uso de furosemida é proibido por que é usado como artifício de ocultar outro doping”, esclarece.

De acordo com o pesquisador, a avaliação não deve levar em conta somente a questão qualitativa, mas também quantitativa, pois a maior parte dos dopings são dependentes da dose. “A pergunta não é apenas se ele ingeriu ou não. Se encontramos uma quantidade muito baixa de determinado agente dopante, em que quase nenhum efeito na performance é esperado, houve doping?”, questiona. “A simples presença de algo não pode determinar que houve ou não desejo de se dopar se entendermos que só há aumento de performance em determinadas doses e não houve nem mesmo efeito mascarante da furosemida  – evidenciados pela concentração e pH da urina”, destaca Figueiredo.

E este parece ser o caso de César Cielo e dos outros três nadadores. Em comunicado oficial à imprensa, Cielo alega uma contaminação no preparo de seu suplemento e afirma que sempre fez uso controlado de medicamentos. Somente neste ano, ele já havia sido testado em cinco ocasiões, além de passar por controles periódicos e integrar o programa de rastreamento da Federação Internacional de Natação (Fina) informando todo e qualquer deslocamento, de modo a estar disponível aos testes em qualquer momento, o chamado Controle Fora de Competição. A farmácia, da cidade natal do nadador e onde ele tradicionalmente faz suas compras, também emitiu um comunicado, confirmando que houve falta de limpeza na bancada onde as cápsulas do suplemento foram produzidas, assumindo o erro na manipulação. “A urina estava concentrada e não diluída, como se espera no caso de usuário de furosemida para mascarar o uso de drogas dopantes. Além disso, a quantidade encontrada da substância era muito baixa, uma evidência de que a ingestão foi via contaminação cruzada”, pondera Figueiredo.

Após justificada a contaminação acidental de seus suplementos, os atletas levaram uma advertência como punição. Sem suspensão ou afastamento, como ocorreu no ano passado com o goleiro Renê, do Bahia, em outubro, com a nadadora Daynara de Paula, em agosto, e com a ginasta Daiane dos Santos, em janeiro – todos eles flagrados com a mesma substância. No caso dos nadadores, a confederação entendeu que não houve culpa ou negligência dos atletas, ficando comprovado que não houve aumento no desempenho durante a competição em que foram avaliados, além de considerar seus históricos exemplares.

Ben Johnson – quebrando um silêncio de 23 anos

Crédito: UOL Esportes

Recentemente, ainda, o caso mais emblemático da história do doping, o do ex-velocista canadense Ben Johnson, ganhou mais um capítulo. Com o lançamento do livro “Seul to soul” (de Seul para a alma, em tradução livre), ele conta outra versão para os fatos que sucederam sua vitória nos 100m rasos, nas Olimpíadas de Seul, em setembro de 1988. Menos de 24 horas após obter a medalha de ouro e a glória como o homem mais rápido do mundo, Johnson foi pego em um exame que acusou o uso da substância estanozolol, que aumenta a força e a potência dos músculos e transformou-se no personagem principal do maior escândalo envolvendo atletas e doping.

O professor da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em doping, Alexandre Nunes, lembra que foi após este caso que os comitês de controle antidoping adotaram regras mais rígidas: “naquela época ainda não existia o sistema de controle fora de competição. Eles iniciaram justamente após essa olimpíada. Isso permitia aos atletas utilizarem as substâncias proibidas e eliminar os vestígios antes de competirem. Isso hoje não ocorre mais, pois eles são controlados em qualquer momento das suas vidas, em competição ou treinamento”.

Ao longo do livro, o ex-velocista confessa que fazia uso de medicamentos, mas alega uma conspiração de seu rival, o americano Carl Lewis, cujo empresário teria sabotado  o exame de urina. Na ocasião, Johnson revelou sua suspeita às autoridades canadenses, que não acreditaram: Lewis acabou ficando com o título. Dois anos depois, Behn Johnson ainda voltou a competir, mas foi flagrado com substâncias proibidas novamente e acabou banido do esporte. “Ainda não li a obra, mas de vítima ele não tem nada: foi pego no doping duas vezes por uso de agentes anabólicos. Sua queixa é que outros atletas também estariam usando substâncias proibidas e apenas ele teria sido pego. É até possível que isso tenha ocorrido, mas por um erro no treinamento dele e por falta de competência dos procedimentos de controle e legislação internacional”, frisa o professor Nunes, que  vem atuando como oficial de controle de doping há quatro olimpíadas.

Em 2003, foram descobertos documentos que mostravam que também Carl Lewis havia sido flagrado em exames antidoping, antes de Seul. O campeão olímpico até confessou que utilizava substâncias proibidas, mas não perdeu nenhuma das dez medalhas que possui.

Vigilância constante

Fatos como esses confirmam o que os especialistas sugerem: é preciso muito cuidado com qualquer substância ingerida. O professor Nunes é enfático: “Nestes tempos onde o esporte é um negócio muito rentável, que o patrocínio de um atleta é diretamente proporcional ao seu desempenho, o exame antidoping se faz cada vez mais necessário. A lista de substâncias proibidas só aumenta e competições sem controle de doping são pouco confiáveis, sem credibilidade. Esse é um conceito que veio pra ficar e que no Brasil deve evoluir ainda mais nos próximos anos”,  prevê.

É difícil separar o alto desempenho de um atleta que bate recordes mundiais do uso de substâncias, e para conter o uso indiscriminado desses suplementos que aprimoram a evolução de um atleta é que existem os diversos comitês reguladores, como a Agência Mundial Antidoping (WADA-AMA), criada em 1999, além dos comitês olímpicos internacionais e nacionais. O importante, segundo Figueiredo é que o atleta saiba exatamente aquilo que está consumindo.  “O profissional não deve tomar algo dado por técnicos ou qualquer outro profissional sem saber do que se trata, pois depois não pode alegar desconhecimento”, salienta.

No caso de Cielo e dos demais nadadores, a “simples” advertência pelo uso da substância furosemida se explica também pela proximidade de uma competição importante, como é o caso do Mundial de Esportes Aquáticos de Xangai, na China, que deve ocorrer entre os dias 16 e 31 deste mês. Até o fechamento desta matéria, a Federação Internacional de Natação (Fina) ainda estava avaliando a decisão da CBDA, para decidir se liberava ou não a participação de Cielo e dos nadadores.  “Contaminação por suplementos pode existir, e existe, mas é raro. Caso ocorra, é muito provável que a concentração daquela droga não será a mesma que alguém que a tome de forma sistemática e em alta concentração para elevar a performance. O tribunal deverá ser sensível a isso”, acredita Figueiredo. O julgamento dos atletas está marcado para acontecer até o dia 24.

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One Comment leave one →
  1. hebe camargo permalink
    30/09/2011 18:05

    gracinhas

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