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Sherlock Holmes invade os gramados: quando a cobertura vai além do espetáculo

01/05/2011

O árbitro Edilson Pereira de Carvalho foi investigado na matéria "A máfia do apito" da revista Veja. Crédito: Antonio Milena/Veja

Ana Carolina Farias
anafarias.jornal@gmail.com

A eterna polêmica acerca do jornalismo esportivo ser uma editoria menos relevante é um preconceito que pode ser explícito ou velado, mas que é relatado por inúmeros profissionais em redações pelo Brasil afora. Essa foi a principal motivação que levou Anna Catarina Magagnin a escrever “Reportagens investigativas no jornalismo esportivo”, como seu trabalho de conclusão de curso, em 2009.

Através da análise de conteúdo, a autora estuda três reportagens de editoria esportiva que abordam casos de corrupção no futebol, buscando classificá-las como jornalismo investigativo, esportivo ou uma mescla desses dois tipos. As matérias “Máfia da Loteria Esportiva”, da revista Placar (1982), “A máfia do apito”, da revista Veja (2005) e “Roupa Suja”, do jornal Folha de São Paulo (2007) compõem o corpus da pesquisadora que questiona se o chavão que tanto ouvia na faculdade estaria errado: o jornalismo esportivo pode ser sério?

Citando Heródoto Barbeiro e Patrícia Rangel que afirmam que “em nenhuma outra área do jornalismo informação e entretenimento estão tão próximas”, a autora entende que essa condição contribui para um mal estar ou preconceito com a editoria. Em sua tarefa de provar a seriedade e o profissionalismo dos que trabalham com o esporte – “o jornalista esportivo é, sobretudo, um jornalista especializado. Isso o diferencia de um torcedor” -, ela refaz a trajetória dessa especialização no Brasil. Uma cronologia que tem na década de 30 um expoente em Nelson Rodrigues, narrando com paixão e dramaticidade as partidas de futebol, mas que chega nos anos 70, primando pela objetividade, tão indispensável a qualquer editoria, e que passa a ser referencial também na esportiva. E são essas características: objetividade, observação, levantamento de dados e depoimentos, hipóteses, além da precisão de análise desse material e muita dedicação, que traduzem o jornalismo investigativo como “uma forma extremada de reportagem”, e que encontramos nas matérias estudadas.

No trabalho de autoria de Sérgio Martins, da revista Placar, foi revelada a fraude vinda desde os anos 70, em resultados de jogos de futebol brasileiro visando compensação na loteria esportiva. A ação era produzida por apostadores – empresários, bicheiros e donos de lotéricas que subornavam árbitros, jogadores e técnicos.  Já os repórteres André Rizek e Thaís Oyama, da revista Veja, escancaram para o país o esquema que até hoje revolta torcedores colorados que viram a taça escapar das mãos do Sport Club Internacional, o time mais prejudicado pela manipulação em resultados do campeonato brasileiro de 2005. Aqui, mais uma vez o centro da polêmica são árbitros e empresários que lucravam com o esquema que também influenciou o campeonato paulista do mesmo ano. E por fim, Juca Kfouri apresentou em matéria na Folha de S. Paulo o resultado da Operação Perestroika, comandada pela Polícia Federal sobre a lavagem de dinheiro envolvendo o Corinthians, a empresa estrangeira MSI do iraniano Kia Joorabchian e, ainda, o magnata russo Boris Berezovski, e que era utilizada em contratações de jogadores e pagamentos de despesas do clube.

Ao conhecermos a natureza dessas reportagens, entende-se que apesar do cunho esportivo, elas podem ser classificadas como investigativas. E esse entendimento fica ainda mais claro com a metodologia aplicada pela autora, que permitiu a identificação das palavras-chaves de maior ocorrência nos textos e que acaba por reforçar sua tese. Nesta apuração, os termos que mais se repetem são identificados com o jargão investigativo, como: corrupção, esquema, escândalo, suborno, quadrilha e parceria, entre outras.

Mais do que comprovar, portanto, que as três matérias que serviram de objeto de estudo para o trabalho são investigativas esportivas, o mérito de Anna Magagnin está, também, em mostrar que é perfeitamente possível, apesar de ainda pouco praticado, um jornalismo esportivo que vá além das quatro linhas ou da simples cobertura de eventos esportivos. Para isso basta faro e vontade de olhar por trás do espetáculo.

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