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O tri e o penta

12/04/2011

Carlos Alberto, capitão da seleção de 70, posa com a taça FIFA. Crédito: Reuters

Bibiana Guaraldi
bibinha_guaraldi@hotmail.com

A comparação entre as coberturas realizadas pelo jornal Zero Hora nas Copas do Mundo de 1970 e 2002 foi o tema escolhido para o trabalho de conclusão do curso de jornalismo de Rovani Moreira Freitas, em 2006. O texto compara não apenas o tratamento dispensado pelo jornal às duas edições da competição, mas também apresenta um panorama do jornalismo esportivo e do período histórico em que cada uma se situa.

A escolha das copas de 70, realizada no México, e de 2002, na Coréia do Sul e no Japão, para fazer a análise, não foi em vão. Em ambas o Brasil sagrou-se campeão e, enquanto a do México ocorreu em meio à ditadura política e cada vitória brasileira era usada como publicidade pelo regime militar, a realizada na Ásia obedeceu às regras do mercado e a notícia de cada partida vencida pela seleção brasileira representou um produto altamente vendável pela empresa jornalística.

Outro ponto em comum apontado pelo autor é o fato de as coberturas dos dois eventos terem sido marcadas por avanços tecnológicos. Em 1970, a chegada da televisão possibilitou a primeira transmissão de uma Copa do Mundo ao vivo no país. No entanto, o eletrodoméstico ainda era um artigo raro, motivo pelo qual o jornal se mantinha como a principal fonte de notícias da população. Trinta anos depois, a primeira Copa realizada fora das Américas e da Europa foi um desafio para os profissionais brasileiros, que tiveram que se adaptar ao fuso do país do evento e do Brasil, que tem doze horas de diferença. A situação trouxe mais problemas para os veículos impressos, já que os jogos aconteciam nas madrugadas ou no início das manhãs, quando os jornais já haviam chegado às bancas.

Apesar das semelhanças apresentadas, as coberturas analisadas foram muito diferentes. Em 1970, a Zero Hora cobriu sua segunda Copa do Mundo, enquanto em 2002, já figurava como o maior jornal da região sul do Brasil e um dos maiores do país. Nestes 32 anos, podem ser observadas mudanças no planejamento gráfico, na linguagem, no público alvo e na função exercida pelo jornal.

Ronaldo marca na final da Copa de 2002. Crédito: Dusan Vranic/AP

Na Copa do México, cada partida era descrita lance a lance, assemelhando-se a uma narração, e a cobertura limitava-se ao que acontecia dentro de campo. Um fato curioso da cobertura realizada pela Zero Hora nesta edição foi o hábito de contar a partida de duas formas diferentes: uma tendo como protagonistas os brasileiros, e outra com o adversário sendo o personagem principal. O relato minuto a minuto era contado duas vezes, praticamente repetindo o texto. Essa divisão entre o Brasil e o seu adversário não se restringia à descrição da jogadas da partida, a atuação brasileira era analisada em uma página, e na seguinte, a do outro time. Além disso, ao comentar a arbitragem, todas as críticas do jornal são sobre lances contrários aos brasileiros.

Já na Copa do Japão e da Coréia do Sul, o acesso aos outros meios de comunicação já era muito mais difundido. A Zero Hora foi apenas parte da cobertura realizada pelo Grupo RBS, por esse motivo, o conteúdo apresentado foi muito mais variado. Em relação à outra cobertura analisada, a “narração do jogo” foi substituída por um resumo contendo apenas os principais momentos, principalmente os ataques com perigo de gol. Se antes apenas o que acontecia dentro das quatro linhas importava, agora o jornal também se preocupou em apresentar aos seus leitores informações sobre os adversários do Brasil, mostrando o país, além da seleção. O que acontecia fora dos estádios também era mostrado para o leitor, especialmente os costumes dos países sede. Quanto à arbitragem, na copa da Ásia, o jornal não deixou de admitir as vezes em que o Brasil foi favorecido por erros da arbitragem.

Segundo conclui o autor, o desafio imposto pela cobertura de um evento da magnitude de uma Copa do Mundo é fugir da mesmice, pois o leitor atual quer mais do que as informações básicas. Os jornais hoje são considerados empresas jornalísticas e o seu “produto” deve ser diversificado – mesmo quando o tema já é uma seção do jornal, como a Copa do Mundo ou a seção de esportes. Ao comparar a cobertura de Zero Hora nas Copas de 1970 e 2002, essa é a maior diferença. Modelos como o encontrado na cobertura de 70 são inconcebíveis nos dias de hoje, pois ao ler o jornal, o leitor provavelmente já assistiu ao jogo, e não lhe interessa mais ler apenas a descrição das jogadas.

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