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Grandes eventos à catalã

12/12/2010

O revigorado porto de Barcelona. Um dos legados da Copa do Mundo na Espanha

Cassio de Borba Lucas
cassioborba@gmail.com

Entre outubro de 1986 e o verão de 1992, um ímpeto de renascimento se formou em Barcelona, na Espanha. Era o prólogo de um evento que retomaria um crescimento cujo fôlego se perdera no fim da década de setenta. A organização e a seriedade com que as atividades estruturais foram conduzidas garantiram, além de um evento bem-sucedido, corolários positivos permanentes a uma cidade.

A reconstrução de Barcelona trouxe benefícios inestimáveis. Acabou tornando-se o exemplo clássico de grande acontecimento perfeito em termos de organização e importância posterior. Segundo Ferran Brunet, da Universidade Autònoma de Barcelona, nos seis anos de preparação, a capital catalã “sofreu a mais dramática transformação urbana de toda a Europa”.

Segundo dados da prefeitura de Barcelona, o consumo elétrico na cidade cresceu 29,7%, mesmo ritmo do consumo de gás. Os dados aeroportuários indicavam um crescimento de 66% nos voos nacionais e 119% nos internacionais. Até o número de telefonemas internacionais disparou: ligações para fora do país aumentaram em 44% e as recebidas do exterior saltaram 306%.

Se Barcelona representa ao máximo a diferença estrutural e econômica que um megaevento esportivo pode gerar num país, há mais exemplos positivos vindos de áreas menos lembradas, como aqueles deixados pela África do Sul em 2010, sede da Copa do Mundo. Numa nação subdesenvolvida e envolta por outras mais pobres ainda, a organização é previsivelmente mais difícil. Os efeitos práticos, consequentemente, tendem a ser menos relevantes. Mas há contribuições incalculáveis em outros aspectos. Udesh Pillay e Orli Bass são os organizadores do livro “Development and Dreams – The urban legacy of the 2010 World Cup”, resultado de uma pesquisa sobre a herança deixada pelo Mundial à África. Na apresentação, afirmam que “há muitos aspectos neste processo que vão além dos empregos criados e integração dos transportes. Eles incluem esperança, expectativa e sonhos. Bens intangíveis capazes de transformar a percepção das pessoas”.

Os anos de organização são comumente associados a projetos ambiciosos, revoluções arquitetônicas e ao notório renascer da área portuária catalã.

Em Barcelona, a responsável organização deveu-se em grande parte à divisão de trabalhos. Consumou-se um acordo que separou as partes administrativa e estrutural. Para a primeira, foram delegados trabalhadores especializados nessa área, segundo o que pensava a prefeitura na época. Já na segunda, parcerias público-privadas foram costuradas com o intuito de gerir as obras da forma mais eficiente possível. Na França de 1998, algo parecido aconteceu, também com resultados positivos. O fato é que o otimismo em relação ao Brasil não é senão razoável: a LCA Consultores constatou que o crescimento econômico nos países–sede da Copa foi mais forte nos dois anos seguintes ao evento do que nos dois anos precedentes. A pesquisa foi mostrada no segundo Fórum Mundial para o Desenvolvimento da Infraestrutura das cidades-sede na Copa do Mundo de 2014.

Os anos de organização são comumente associados a projetos ambiciosos, revoluções arquitetônicas e ao notório renascer da área portuária catalã. Antes disso, contudo, preparações menos glamurosas e, segundo alguns, ainda mais fundamentais devem ser satisfatoriamente efetuadas. É isso que nos faz perceber César Fontanari, arquiteto do Estádio Olímpico envolvido com as mudanças para a Arena, futura casa do Grêmio. Ele garante que está tomando cuidados esquecidos por organizações pouco cuidadosas: “o impacto ambiental é muito grande. Teve alguns estádios demolidos agora há pouco que não tiveram a menor consideração com o meio que circunda o prédio. Tu tens que ter ideia do transtorno causado aos vizinhos”. O Tricolor tenta, por isso, aplacar uma política de boa vizinhança. Além disso, mostra preocupação com detalhes: “Barulho, poeira, bichos… vamos desalojar morcegos, um microsistema de vida que vai se deslocar pra algum outro lugar. Temos quatro ou cinco espécies de morcegos, com colônias e ninguém percebe. Mesmo o entulho tem de ter um cuidado especial. Não pode ser misturado a lâmpadas e vidros, por exemplo. Está se fazendo um trabaho para o destino de cada coisa dessas”.

Os grandes acontecimentos têm condições de prover um acréscimo permanente à qualidade de vida dos locais em que ocorrem. Às custas de boa administração, dinheiro bem investido e fiscalização, Porto Alegre e o Brasil podem ser o próximo grande exemplo.

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