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Voluntariado pode ser o maior legado da Copa para o RS

09/12/2010

Damian Steppacher no Estádio de Durban

Maria Fernanda Cavalcanti
mariafernandamc@hotmail.com

O vínculo que o brasileiro tem com o futebol é indiscutível e reconhecido no mundo todo. Além de ser uma verdadeira fábrica de jogadores com muita qualidade e de ser a escola do futebol arte, aqui torcemos e defendemos nosso time como se o mundo estivesse acabando em 90 minutos. Acordamos e respiramos futebol nos seis dias da semana que não têm jogo, e naquele que tem, somos só futebol, e “ai” de quem inventar outro programa para o domingo. Os jogos são verdadeiras festas com direito a show, aplausos, sorrisos, cânticos, danças… Uma experiência que envolve os cinco sentidos e te faz querer viver mais e mais daquilo tudo, inebriante. Por vezes podem virar batalhas duras, sofridas, feias, aguerridas, porém sempre envoltas na aura do inesperado presente, repletas de magia e, por isso, sempre inebriante.

Imagine agora o brasileiro vivendo a Copa do Mundo, onde tudo e todos ficam submersos por futebol durante um mês inteiro, 24 horas por dia, nas ruas de todo país. Porém, assim como nossa alegria por este esporte, também os nossos vastos e conhecidos problemas sociais chamam a atenção do mundo todo. Por isso, talvez somente uma coisa será mais importante para o Brasil do que aqueles trinta dias de futebol e Copa do Mundo: o legado que esta pode deixar. Não só em relação à infraestrutura das cidades-sede e toda mudança prática e física que sofrerão, mas principalmente em relação às transformações no setor humano, na população brasileira.

Como sabemos, em todo megaevento esportivo que acontece ao redor do mundo são escalados voluntários para ajudar na organização e execução do mesmo. São pessoas que por livre vontade optam em trabalhar no evento sem nenhum tipo de remuneração financeira. Mas primeiro, devemos entender que, num evento como a Copa do Mundo de futebol, existem dois tipos de sistema para voluntários. O primeiro é o chamado Programa de Voluntários da FIFA, onde os interessados são selecionados pela entidade máxima do esporte e organizadora de todas edições da Copa, mas falaremos dele mais adiante. O segundo sistema é o voluntariado, no qual cada estado brasileiro das respectivas cidades-sede terá a missão de, através de suas secretarias especiais, criar grupos de pessoas dispostas a auxiliar o turista e a população em geral nos dias de evento nas cidades.

Aqui no Rio Grande do Sul não será diferente. A Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo, responsável pela intermediação do governo do Estado com as prefeituras e instituições privadas, sancionada pela governadora Yeda Crusius, já vem articulando alguns projetos de voluntariado desde sua criação no final de 2009. O principal deles, que ainda precisa ser aprovado pela Câmara, oferece mais de duas mil vagas a adolescentes de 14 e 15 anos, oriundos de escolas públicas e de famílias de baixa renda. A ideia do projeto é capacitar estes jovens através de cursos de línguas (inglês e espanhol) e de noções básicas de turismo e de tratamento ao turista, a fim de prepará-los para a Copa de 2014, tudo subsidiado pelo Governo do Estado. Formados nos cursos, os adolescentes estarão aptos a auxiliar as pessoas nos dias de jogos e orientar os turistas que se localizarem dentro e fora da região metropolitana de Porto Alegre, já que o projeto abrange as principais cidades de todo Rio Grande do Sul. O maior ganho certamente fica para os próprios jovens que, além de fazerem parte do maior evento de futebol do mundo, vão carregar o conhecimento adquirido pelo resto de suas vidas. Tanto as situações vivenciadas nos anos de preparação ao Mundial quanto nos dias de Copa, terão um valor incalculável para estes jovens cidadãos que muito provavelmente não teriam outra forma de experienciar isso senão através do voluntariado.

O gaúcho conhecendo as peculiaridades da culinária africana no Victoria Market

Além dos projetos de cunho social dentro do voluntariado, o governo estadual pretende oferecer ao longo destes quatro anos, em parceria com instituições privadas, cursos de capacitação profissional específicos para o setor de serviços, como hotéis e restaurantes. Devem ser oferecidas aulas para garçons, gerentes, auxiliares de limpeza, taxistas, entre outros, com dicas e conhecimento específico para cada área de atuação, além de cursos básicos de inglês e de espanhol e de tratamento ao turista.

O que se deve destacar neste momento é a fase de transição de comando no governo do Estado, o que acarretará em mudanças na Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo. Todos os projetos em andamento serão repassados à nova comissão e poderão sofrer variações e melhorias. O governador eleito, Tarso Genro, iniciará seu mandato em janeiro do próximo ano e já indicou que a atual Secretaria será extinta para dar lugar a um órgão oficial e com caráter mais formal. Para isso, Tarso já nomeou o deputado estadual Kalil Sehbe como o novo secretário estadual dos Esportes e Lazer do Rio Grande do Sul. Sehbe terá a missão de conduzir os projetos relacionados à Copa do Mundo no Estado, explorando a “horizontalidade” nos múltiplos setores que interferem na execução do evento, segundo o próprio governador eleito indicou em outubro deste ano.

No outro braço de voluntários para a Copa do Mundo temos o já conhecido Programa de Voluntários da FIFA, citado anteriormente. Geralmente um ano antes da Copa, a entidade abre as inscrições por meio de seu site (http://www.fifa.com/worldcup/organisation/volunteers/index.html) para aqueles que desejam doar tempo, mão-de-obra e energia para o maior evento de futebol do mundo, arcando com todas as suas despesas, desde passagem até acomodação. As vagas abrangem os mais variados setores para trabalhar diretamente dentro dos estádios ou arredores, de organização de filas e compra de ingressos até a área de marketing, apoio à imprensa, mídia e gerenciamento de pessoas dentro do megaevento em cada cidade-sede.

Este último é o caso do administrador Damian Steppacher, de trinta anos, que este ano foi um dos quinze mil selecionados para ser um dos voluntário na Copa do Mundo na África do Sul. Damian, que é gaúcho e colorado de Porto Alegre, trabalhou na cidade de Durban como Gestor de Voluntários. O gaúcho era o responsável por todas as pessoas envolvidas no trabalho voluntário dentro do estádio e também fora dele, fazendo a checagem de pessoal e distribuindo os vouchers de alimentação, cuidando das broncas, entre outras coisas. O que fez Damian se destacar nessa jornada à África do Sul, foi seu gosto por megaeventos esportivos e seu faro de empreendedor. Assim que soube que havia sido selecionado, o guri tratou de arrumar uma maneira de usar a experiência que iria adquirir em 2010 na Àfrica, para aplicá-la aqui no nosso país em 2014. Para compartilhar e reunir todo seu conhecimento adquirido no Mundial, o administrador criou, em parceria com outro amigo que também estava embarcando como voluntário, um blog completo relatando suas experiências e percepções da Copa do Mundo na Àfrica do Sul, o http://voupracopa2010.com.br. Dentro do site, existem relatos, percepções, desabafos, fotos e outros materiais à disposição de quem estiver interessado em saber como é de fato ser um voluntário numa Copa do Mundo. No blog, percebemos que, apesar dos desafios e contratempos, a experiência de se doar em prol de um movimento pelo esporte e pela união acaba superando tudo, como Damian nos revela na entrevista abaixo:

Damian trabalhando no Centro de Voluntários na cidade de Durban

O que lhe motivou a se tornar um voluntário na Copa do Mundo?
Eu sempre tive interesse por megaeventos esportivos e sua relação com Administração e Marketing (minha área de formação na UFRGS), tanto que meu trabalho de conclusão tratou da fidelização de torcedores do Sport Club Internacional. Em 2004 fui selecionado para os Jogos Olímpicos em Atenas, mas por questões de hospedagem acabei não conseguindo ir, pois estava difícil para conseguir lugar em Atenas. Em 2006 me inscrevi novamente, porém para a Copa da Alemanha, mas desta vez não fui selecionado, já que um dos pré-requisitos era o domínio da língua alemã. Segui tentando diversos programas de voluntariado em eventos esportivos e finalmente consegui ir para a Copa da África do Sul.

Como foi o processo desde a inscrição/seleção e treinamento?
A inscrição é realizada no site da entidade (no caso da Copa, a FIFA), e normalmente ocorre um ano antes do evento acontecer. Me inscrevi em julho/agosto de 2009 e nesse momento tive que escolher qual cidade gostaria de trabalhar. A escolha foi em Durban, já que contava com uma semifinal e possuia um clima muito melhor que o de Joanesburgo (final) ou de Cape Town (semifinal). Houve toda uma pesquisa prévia pela Internet sobre as cidades-sede. Em janeiro/fevereiro de 2010 fui chamado para uma entrevista no consulado da África do Sul, em São Paulo, que foi realizada com o próprio pessoal do consulado (cônsul político). Mais alguns meses de espera e veio a confirmação de que havia sido selecionado para Durban como voluntário. Assim, embarquei dia 02/06 e voltei dia 17/07 para o Brasil.

Você arcou com todos os custos de estadia e passagens aéreas. Mas chegando lá, você teve algum auxílio com transporte, alimentação, etc?
Nenhum custo é bancado pela FIFA, nem passagem e nem acomodação. Ela oferece alimentação no dia de trabalho, que foi um dos problemas graves da organização dessa Copa. Foi oferecido R120 (mais ou menos 30 reais) diários em forma de voucher para cada dia trabalhado (deveria ser pago diariamente). Nos primeiros dias tentou-se organizar um buffet, mas as condições de higiene do centro de voluntários eram precárias (pombas dentro do local de trabalho; ratos passando no banheiro). Assim, passou-se a entregar uma sacola com uma comida preparada, que pela sua qualidade não valia nem R20. Outro problema foi o transporte. Na África do Sul o transporte público é quase inexistente e por esta razão foi oferecido transporte FIFA para jogos que terminavam muito tarde à noite. Pela falta de organização do comitê local, esse transporte era ineficiente e chegou ao ponto de pessoas aguardarem até às 3h da manhã para voltar pra casa.

Deu tempo de assistir/curtir algum jogo?
Os turnos de trabalho variavam de 6h até 10h por dia. Em dias de jogos o trabalho era mais puxado, pois chegava cedo para organizar o centro de voluntários e 3 horas antes do jogo ia para o estádio para trabalhar como Apoio ao Espectadores e lá permanecia até o final da partida. Após a partida retornava ao centro de voluntários para organizar a distribuição de comida e bebida, e o check-out de todos voluntários que trabalharam no evento. Naquelas horas que estava trabalhando dentro do estádio era possível dar uma olhada nas partidas, porém, a idéia era que o voluntário estivesse sempre à disposição dos torcedores e éramos constantemente fiscalizados. Aproveitava mesmo os jogos fora de Durban, quando assistia na Fun Fest ou em algum pub com outros voluntários e torcedores.

A experiência atingiu suas expectativas? Qual foi o maior desafio e o maior ganho de ser um voluntário em um dos maiores eventos esportivos do mundo?
A África do Sul me surpreendeu positivamente. Tinha uma expectativa muito negativa quanto à organização da Copa e também à própria África do Sul. A maioria das notícias que ouvia eram negativas. Quando cheguei em Durban, vimos que em muitos aspectos ela é extremamente superior a diversas cidades do Brasil, e especialmente a Porto Alegre. Muito boas condições de infraestrutura e segurança muitas vezes não vistas em Porto Alegre. Ruas iluminadas, ruas bem pavimentadas, casas com grades abertas, grades baixas, aeroportos muito superiores a qualquer um no Brasil. O maior desafio e ao mesmo tempo ganho era gerenciar um grupo de voluntários de diversos países. Em um plano mais amplo, a experiência de trabalhar no exterior, lidar com diferentes culturas, línguas estrangeiras, enriquece o currículo e me habilita para lidar com a diversidade nas organizações.

Como podemos ver no seu site, você tinha um projeto pronto com objetivo claro de ir como voluntário para buscar conhecimento e aplicá-los na Copa do Mundo aqui no Brasil. Depois de ter vivido essa experiência, como você vê as condições e as perspectivas de Porto Alegre quanto cidade-sede de uma Copa?
Porto Alegre tem muito a melhorar em infraestrutura, como aeroportos, estradas, sinalização, pavimentação das ruas. Por outro lado, o transporte público aqui é muito superior e contribuirá na organização de uma Copa melhor por aqui. Acredito que os porto-alegrenses sejam mais organizados e que assim possam oferecer serviços melhores e apoio aos voluntários, torcedores, equipes de mídias, turistas e todos os demais envolvidos.

Além do site com sugestões e informações, vocês estão colocando em prática algum outro serviço que visa apoio ao evento em 2014?
Já me coloquei e sempre estou à disposição de distintos orgãos/instituições/pessoas para passar o conhecimento adquirido. Fico um pouco decepcionado com a falta de interesse principalmente do Comitê Organizador Local e os clubes de futebol de Porto Alegre. Infelizmente fatores políticos dificultam a aproximação. Tenho participado de palestras e entrevistas onde conto a experiência vivida.

Quais requisitos necessários para aqueles que pretendem ser voluntários de uma Copa?
Vontade de trabalhar, de doar seu tempo para de fato fazer um grande evento. A mão-de-obra voluntária representa a grande força de trabalho em um grande evento esportivo como uma Copa do Mundo e estar engajado para que tudo supere as expectativas dos espectadores é fundamental. Sem brilho no olhar do voluntário a Copa do Mundo é apenas mais uma.

Se você também quer fazer parte deste grande legado humano da Copa do Mundo no Brasil, gosta de esporte e está disposto a trabalhar em busca de satisfação pessoal e conhecimento, fique atento a alguns requisitos mínimos como: ter 18 anos completos até março de 2014 e inglês fluente. Além disso, o processo de candidatura e de preparação do voluntário é concluído em diferentes etapas, por isso, os interessados devem estar disponíveis para atender a todas e comparecer à entrevista e ao treinamento. Mas antes de mais nada, você deve esperar até que o processo de inscrição para 2014 seja lançado pela FIFA, através de seu site oficial (http://www.fifa.com/worldcup/organisation/volunteers/index.html). Geralmente, as inscrições são abertas um ano antes do evento.

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  1. Damian permalink
    09/12/2010 22:23

    Parabéns Maria! Ficou Muito legal! 🙂 Sucesso para o projeto do blog!

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