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Campeão da Libertadores e do Mundo: a aventura de João Cardoso

29/10/2010

O mítico Racing de 1967 - Cardoso está agachado na frente do goleiro Cejas, que depois jogaria no Grêmio. Foto: sem crédito

Arthur Dias Eich
artei@hotmail.com

“Ah, o futebol de antigamente, o jogador tinha que ser bom para vencer!”. Já ouviram esta frase? Não que esta seja uma matéria de nostalgia, mas que se manifeste quem não a tenha ouvido, provavelmente vinda de uma pessoa que presenciou o futebol no Brasil e na América do Sul dos anos oitenta para trás. Falo mais exatamente daquele tempo que nossos pais e avôs citam, em que até os times do interior tinham bons jogadores. Os grandes, então, tinham craques do gol até a ponta-esquerda.

Pois os anos noventa vieram, os clubes europeus passaram a levar todo jogador com algum talento e, hoje em dia, os craques latino-americanos são vistos apenas pela televisão, uma vez que eles jogam longe demais de nossos estádios. Mas nossos pais e avôs seguem por aqui, contando como era antes desta debandada. E as histórias são sempre incríveis. Formações de times citadas de cor, gols antológicos, partidas fenomenais, jogadores completos e etc.

Estive na casa de um desses personagens do futebol antigo: João Cardoso. Centroavante de ofício, camisa nove dos bons. “Mas, por incrível que pareça, joguei pouco na posição, em quase toda a minha carreira fui ponteiro”. Atuou por times do Brasil e da Argentina. Aqui em terras tupiniquins, iniciou a carreira no Uruguaiana e depois se transferiu para o Grêmio, onde foi bicampeão gaúcho. Já na Argentina, defendeu Newell’s Old Boys, Independiente e Racing Club de Avellaneda, onde alcançou a glória de ser campeão da Libertadores da América e do Mundial Interclubes.

Cardoso, como era conhecido nos tempos de jogador, parece não perceber que é um mito. Quando fala de seus tempos de jogador de futebol, passa a impressão de ter sido apenas uma grande aventura. Mas o ex-atacante é um dos maiores heróis da história do Racing Club. Em 2007, o clube organizou uma celebração para comemorar os quarenta anos dos títulos da América e do Mundo. Cardoso, novamente em Buenos Aires, reviu amigos e pode perceber o significado daquelas conquistas para a história e os torcedores da equipe. Desde então, organizou em casa prateleiras pela sala e corredor que leva para os quartos, onde expõe as medalhas, taças e fotos da época de jogador. Época essa que merece ser retratada.

João Cardoso. Foto: arquivo pessoal

Nascido em 1939, em Uruguaiana, cidade gaúcha na fronteira com Argentina e Uruguai, Cardoso viveu infância e adolescência na cidade, mas decidido a ir para Porto Alegre e ser jogador de futebol. E do Grêmio. Para as eventuais broncas e surras que levava do pai por cabular aula para jogar bola a resposta era sempre a mesma: “Pode bater, mas que eu vou jogar no Grêmio, isso eu vou!”.

Aos dezenove anos, em junho de 1959, assinou o primeiro contrato profissional, com o Esporte Clube Uruguaiana. Durou pouco no clube. Em setembro do mesmo ano, o Grêmio realizou um amistoso contra o Uruguaiana e Cardoso se destacou. Oswaldo Rolla, o Foguinho, treinador da equipe porto-alegrense na época, pediu a contratação do jogador. “Em 20 de setembro de 1959, assinei o contrato com o Grêmio e realizei meu sonho”. O pai, Aristóteles, não quis que o filho fosse para Porto Alegre ser jogador de futebol. Foi preciso a intervenção da mãe, Aristotelina, para que o rapaz pudesse seguir o seu caminho.

O time do Grêmio na época era quase uma seleção. Era o atual tri-campeão gaúcho (56, 57 e 58) e possuía craques como Gessy (também oriundo de Uruguaiana), Aírton e Juarez. Mas ainda assim, Cardoso conseguiu cavar o seu espaço, sendo titular até o fim do ano, quando o Grêmio conquistou o tetra-campeonato gaúcho. “Na verdade, eu era reserva do ataque inteiro, então sempre conseguia jogar, porque alguém não podia. Mas por causa do Juarez, que era um grande centroavante e titularíssimo, eu acabei jogando muito pela ponta-direita”.

Das melhores memórias da passagem de Cardoso pelo Grêmio estão o convívio com os outros jogadores e com o treinador Osvaldo Rolla. Ainda era um tempo sem pressões extremas por resultados, o que garantia um ambiente descontraído no dia-a-dia da equipe. “Uma vez jogamos contra o Real Madrid de Puskas e Di Stéfano, em Estrasburgo, na França, e eles tinham por hábito oferecer um coquetel para a equipe adversária. Durante a confraternização, o Foguinho parou ao lado do lendário Puskas, que era baixinho e gordinho, olhou para o Aírton e disse: “Senhor Aírton, veja o homem que o senhor vai marcar no jogo. Não tem perigo, até eu marco este!”. No intervalo do jogo, o Puskas já tinha marcado dois gols e estava dando um baile. O Aírton entrou no vestiário, olhou para o Foguinho e disse: “Então, o senhor não quer entrar em campo para marcar o homem?”. Aqueles eram tempos mais calmos”.

Também em 1960 Cardoso e o Grêmio foram campeões gaúchos (o penta-campeonato do Clube), mas, em 1961, o Internacional acabou com o jejum de conquistas, que já durava cinco anos, e levantou a taça do Gauchão. Para Cardoso, acabava ali a passagem pelo Grêmio, já que em fevereiro de 1962 o atacante foi jogar no argentino Newell’s Old Boys, envolvido em uma troca pelo ponteiro-direito Ribeiro, apelidado de Tesourinha II, pela semelhança com o antigo ponteiro.

A chance de jogar o campeonato argentino agradava Cardoso. A equipe do Newell’s Old Boys recém havia subido para a primeira divisão. Porém, a descoberta de que o Newell’s havia pago um incentivo para outra equipe ganhar um jogo (a chamada mala branca) acabou tendo como punição a permanência da equipe na segunda divisão, onde ficaria até o ano de 1963. “Eu tenho muito carinho pelo Newell’s. Mas tenho que admitir que na época em que eu joguei por lá, de 62 até o início de 66, o time era bem fraco”.

Em março de 1966, Cardoso foi vendido para o Independiente de Avellaneda, numa transação muito cara para a época. “Mas era merecido, eu estava jogando um grande futebol. Minha estréia foi contra o Boca, na Bombonera lotada. Marquei um gol e dei o passe para outro”. O grande momento, porém, não durou muito. No quarto jogo pela equipe, Cardoso machucou o tornozelo. “No intervalo, como não havia substituição, o médico me deu uma injeção de xilocaína para agüentar até o final sem dor. Tudo bem, cheguei até o fim do jogo. Mas em 10 dias minha perna estava inchada e preta e o ano estava perdido”.

O médico do clube, sabendo que havia feito algo ilegal, proibiu Cardoso de ir até um hospital e de ser visitado pelos outros jogadores do Independiente, para a gravidade da lesão não ser percebida. “Foi um ano difícil. Quando voltei a treinar, jogava dois ou três jogos e tinha uma distensão na coxa, mais três jogos e outra lesão. Não conseguia uma seqüência grande sem sentir algum problema. Assim foi por todo o 1966”. Um colega de Independiente, De la Mata, também constantemente machucado, resolve sugerir de ambos irem até Lujan, a 70km de Buenos Aires, visitar a Basílica da cidade e pedir recuperação para Nossa Senhora de Lujan. Cardoso, pouco religioso, mas querendo um rumo para a carreira, aceita. O relato que segue é incrível. “Voltamos para casa, eu e minha mulher, às 20h. Tinhamos o costume de dormir tarde. Estávamos assistindo televisão, à 1h da manhã, quando tocou a campainha de casa. Eram três dirigentes do Racing Club, querendo me contratar para a disputa da libertadores de 1967”. A contratação, que já havia sido tentada em anos anteriores, desta vez se consumou, e Cardoso se transferiu para a outra equipe de Avellaneda.

Grêmio no final dos anos cinquenta - Cardoso é o segundo da esquerda para a direita (agachado). Foto: sem crédito

O Racing, que havia sido campeão argentino em 1966, possuía a chamada El Equipo de José, um grande time treinado por Juan José Pizzuti, ele próprio um jogador lendário do clube nos anos 50 e início dos 60. Destacavam-se craques como Roberto Perfumo, Alfio Basile, Juan Carlos Cárdenas e Humberto Maschio. Cardoso, já retomando a boa forma, foi titular por toda a campanha que culminou na conquista da Libertadores de 67. Na final, contra o uruguaio Nacional de Montevidéu, foram precisos três jogos para definir o campeão. Os dois primeiros, em Avellaneda e Montevidéu, terminaram empatados em 0 a 0. No terceiro e decisivo, em Santiago do Chile, Cardoso marcou o primeiro gol da vitória por 2 a 1. “Aqueles três jogos foram incríveis. Eu diria que, em cada partida, os dois times jogaram por 15 minutos e brigaram por 75. Então, quando vencemos o terceiro jogo, além da emoção da conquista havia também o alívio por não termos mais que brigar”, diz Cardoso rindo.

Na disputa da Copa Intercontinental, contra o Celtic, da Escócia, também foram precisos três jogos para definir o campeão. No primeiro, disputado em Glasgow, a equipe escocesa levou a melhor por 1 a 0. No segundo, em Avellaneda, o Racing venceu por 2 a 1, de virada. Na partida extra, disputada em Montevidéu, no Uruguai, um chute de fora da área de Cárdenas, no início do segundo tempo, garantiu a vitória do Racing por 1 a 0 e a conquista do título mundial. Glória máxima para o Racing e para Cardoso, um brasileiro que triunfou na Argentina.

Cardoso seguiu no Racing até o fim de 1969, quando voltou para o Brasil para jogar no Náutico, em Recife. Mas 40 dias após assinar com a equipe pernambucana, já cansado de tanto viajar e querendo voltar para Porto Alegre, resolveu encerrar a carreira de futebol. Ainda tentou ser treinador, estando à frente do Cruzeiro de Porto Alegre, em 1972, mas a experiência durou poucos meses. Passou a ser fiel de armazém do Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais (Deprec), por onde se aposentou em 1996. Hoje em dia, evita ao máximo sair de casa. Não gosta mais de viajar. “Sou de um tempo em que os times faziam excursões de dois, três meses, para toda parte do mundo. Ficava muito tempo longe da família. Além do mais, voávamos em aviões em péssimo estado. Por isso, não ando mais de avião e pouco saio de casa”.

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One Comment leave one →
  1. Felipe C. Barbosa permalink
    29/10/2010 3:09

    Muito boa matéria hein!! E esse cara, é meu vô! HEHEHE!

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