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Blatter, Havelange, Teixeira e a máfia da bola

30/09/2010

Carta Capital - 30 de junho de 2010

Luiz Eduardo Kochhann
luiz.kochhann@hotmail.com

Em matéria publicada em 30 de junho de 2010, durante a Copa do Mundo da África do Sul, a revista Carta Capital fez denúncias contra os presidentes da FIFA, Joseph Blatter, e da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. Entre acusações de lavagem de dinheiro e pagamentos de propinas milionárias para altos funcionários da entidade, Blatter e sua corja de seguidores são comparados à máfia pelo jornalista inglês Andrew Jennings, entrevistado pela revista brasileira. O chefão da entidade máxima do futebol mundial se defende: “Nunca corrompi, nunca fui corrompido e nunca o faria”. Seus desmandos ganham respaldo de figuras como Putin, Obama, Sarkozy, Merkel, Gordon Brown, pouco interessados em futebol e coniventes com as atitudes de Blatter.

Segundo Jennings, apenas nos anos 90 a FIFA pagou aproximadamente 100 milhões de dólares em propinas via ISL – aquela mesma sociedade de marketing e de direitos de TV responsável por parcerias pra lá de suspeitas com clubes brasileiros no final do século passado. Sistema de fraudes inauguradas na gestão (1974 – 1998) de João Havelange, o homenageado com o nome do Brasileiro de 2000, com pagamento de propinas de 1 milhão de francos suíços. Na relação de depósitos feitos pela ISL, ainda há um para a Renford Investment Ltd., sociedade controlada por Havelange e Teixeira. As acusações do jornalista inglês estão publicadas no livro “Foul! The Secret World of FIFA: Bribes. Vote-rigging and Ticket Scandals” e são baseadas em informações de um processo de 2008 no tribunal de Zug, na Suíça, relacionado à falência da ISL.

Enquanto isso, os clubes europeus entregam-se a extravagantes magnatas vindos de qualquer canto do mundo e dispostos a brincar de futebol com seus bilhões de dólares: Massimo Morati na Internazionale de Milão, Romam Abramovich no Chelsea, o mulherengo Silvio Berlusconi no Milan e, é claro, o gastador Florentino Perez e seu galáctico Real Madrid. As dívidas, porém, não param de crescer: Manchester United, 820 milhões de euros; Real Madrid, 800 milhões; Internazionale de Milão terminou 2009 com os títulos da Champions League, Italiano e Copa da Itália e, mesmo com o apoio da Pirelli, 430 milhões de déficit. O desastre financeiro do futebol no velho mundo passa, em primeiro lugar, pelos gastos excessivos em salários e contratações que não trazem resultado nenhum dentro de campo. Os já citados detentores da grana gastam cada vez mais e elevam os valores do mercado do futebol a níveis astronômicos, alimentando uma bolha financeira prestes a explodir.

No colo de quem? Da FIFA é lógico que não. Em oposição à situação dos clubes, a entidade superou o bilhão de dólares de entradas em 2009, com lucro de 169 milhões de euros. O dinheiro vem de contratos com patrocinadores e direitos televisivos. No último mundial, a arrecadação publicitária girou em torno de 2,5 bilhões de dólares (o dobro do mundial na Alemanha), ultrapassando, somando-se os direitos de televisão, os 3,4 bilhões de dólares. Desta quantia, 30 milhões deveriam ir para o campeão. Mas, de acordo com o jornal espanhol Marca, o prêmio ainda não foi pago três meses depois da vitória da Espanha.  

No Brasil, o endividamento dos clubes cresceu 35% nos últimos três anos. Os 14 maiores clubes atingiram juntos uma dívida de 2,4 bilhões de reais no ano passado, 60% dela de natureza fiscal. Mesmo com crescimento no faturamento – conseqüência do aumento da arrecadação com patrocínios, cotas de tevê e bilheterias – a crise do futebol europeu se reflete no Brasil com a diminuição de quase 50% da renda da venda de jogadores. O problema é que os clubes brasileiros insistem em modelos de gestão que já se mostraram fracassados. É o caso da parceria Corinthians/MSI, que não rendeu nada mais do que um Campeonato Brasileiro ganho no tapetão, um conseqüente rebaixamento, suspeitas de lavagem de dinheiro e uma divida de 100 milhões de reais. No Palmeiras, apesar de Carta Capital ouvir o presidente do time, Luiz Gonzaga Beluzzo, como fonte para apontar os erros dos europeus, seu clube mantém as mesmas práticas em São Paulo. Além de pagar valores irreais para sua comissão técnica, depende de uma parceria com a Traffic, que concede jogadores medianos ao clube, para revendê-los logo em seguida, obrigando a formação de um time novo todo ano.

Alheio a crise dos clubes brasileiros, Ricardo Teixeira organiza sozinho, como bem entende, uma Copa do Mundo. Depois da FIFA recusar várias propostas do São Paulo para a reforma do Morumbi, o presidente da CBF e seu companheiro Andrés Sanches, presidente do Corinthians, anunciam a construção de um novo estádio na capital paulista. Alguma dúvida de que tudo estava previamente planejado? Para a imprensa esportiva brasileira, nada fora do normal. A máfia da bola tem em 2014 sua mais sedutora oportunidade de ganhos e, se depender da inoperância do nosso jornalismo esportivo, vai continuar agindo sem ninguém para lhe atrapalhar.

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