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O jornalismo esportivo como construção

29/09/2010

Ronaldinho Gaúcho: “para construção do esporte, o jornalismo cultua o herói” (Viviane Borelli). Foto: AFP

Thiago Tieze
ttieze@gmail.com

O esporte, tal qual o conhecemos hoje, em grande medida é obra da mídia, principalmente no que toca o jornalismo. Produtora de bens simbólicos e mediadora de relações sociais, a atividade jornalística é a grande responsável pelo modo como a sociedade se vê e se comunica. O jornalismo, que durante muito tempo acreditou ser somente um espelho da sociedade, hoje se vê como epicentro de parte das discussões que incita. Entender um pouco mais sobre como esse produtor de sentidos age em relação ao esporte e, principalmente, como se dá a construção do jornalismo esportivo e suas complexas interações com outros campos sociais é fundamental para que se melhore a produção de informação.

Vivane Borelli, autora do artigo “Jornalismo esportivo como construção”, afirma que “o esporte só ganha existência social porque passa por procedimentos técnicos, teóricos e por uma grande ‘conversação’ empreendida no cotidiano, seja pela construção da agenda midiática ou pelas falas dos atores sociais – da opinião pública. Sem o empreendimento da linguagem sobre o esporte, ele passa a ser apenas uma atividade regrada, praticada pelos seus atores, ficando limitada à experiência daqueles que o vivenciam. Dessa maneira, o jornalismo esportivo contribui para um melhor entendimento dos movimentos humanos e, em especial, do esporte”. O jornal é considerado um ator social produtor de sentido no campo esportivo, de forma muito particular.

Limitando-se ao jornal impresso, Borelli constata movimentos que são comuns à abordagem esportiva em qualquer outro meio. “Seguindo caminhos próprios e muito particulares para construção do esporte, o jornalismo cultua o herói, constrói uma grande atorização a partir dos maiores ícones do mundo esportivo”, e “a partir desses múltiplos e variados movimentos, o jornalismo institui o esporte, levando-se em conta aspectos simbólicos e culturais dessa prática”. Aqui Borelli aborda o ponto central da discussão que levanta. O jornalismo, como um todo, produz sentidos, induz interpretações e, teoricamente, informa a sociedade daquilo que ela precisa saber. Produzir sentidos em relação ao jornalismo esportivo, para a pesquisadora, exige conhecimentos específicos não apenas do campo jornalístico, mas também singularidades do campo esportivo. A afirmação que, num primeiro momento não passa de uma obviedade, precisa ser entendida como Borelli a coloca. Ela diz que a atividade de construção do esporte deveria ser realizada por especialistas, ao passo que seria necessário alguém explicar o que ocorre nesse campo para o leitor. Assim surge uma figura denominada de leitor privilegiado, ou colunista.

Ele, o colunista, como enfoca a autora, “é primordialmente um orquestrador de falas dos diversos campos sociais, na medida em que a coluna esportiva pode ser entendida como uma entidade socialmente constituída, pois é nesse espaço, habitado por ideais a serem defendidos, que são instituídos pontos de vistas”. O ponto de vista do qual se coloca Borelli é muito lúcido, principalmente no que tange a questão da especialização do jornalismo esportivo. O espaço ocupado pela editoria de esporte nos jornais, fixa e específica, pode ser considerada grande, quando comparada a outros campos do conhecimento e atividades que compõem a sociedade e demonstram-se tão importantes quanto a esportiva.

As vozes de variados campos sociais, que disputam espaço – em busca de notoriedade, visibilidade e legitimação social – são orquestradas pelos jornalistas na produção da atualidade. “O mundo das fontes, o imaginário dos leitores, a concepção de um “leitor modelo” e as regras internas do campo jornalístico são fatores determinantes e disputantes no espaço jornalístico esportivo. Dessa forma, o trabalho resultante das interações e mediações vai estar carregado de marcas não apenas do colunista, mas também dessas inúmeras fontes convocadas para legitimar a fala”, explica Borelli. As negociações, que implicam o espaço ocupado pelo esporte todos os dias nos jornais, são realizadas entre as vozes que compõem todos os campos sociais envolvidos.

A capacidade de mudança na estrutura do jornal – principalmente quando ocorrem os grandes acontecimentos esportivos, como as olimpíadas, ou que envolvam grandes atletas – é um fator inerente e importante relacionado ao campo esportivo. Como todo trabalho jornalístico, a cobertura esportiva possui suas peculiaridades. Uma linguagem própria que, com o tempo, acaba sendo compreendida pelo público, facilitando, assim, o entendimento de determinada modalidade e o fortalecimento de características próprias do esporte, como ludicidade, entretenimento e emoções. Além de, em grande parte, não obedecer às regras do jornalismo, uma vez que lança mão de estratégias variadas para cooptar o público. Para tanto, abandona a forma preestabelecida do lide, dá a sensação de liberdade e, por vezes, abre mão do manual de redação, que padroniza os textos da empresa.

A mídia é a mediadora dos discursos a respeito do esporte que ela mesma suscita. É através desses discursos que ela recria o esporte e o coloca em discussão em meio à sociedade, formando um ciclo. O processo de agendamento, conforme Borelli, resulta de movimentos que a sociedade realiza, a partir das relações entre os diversos campos sociais, que constituem suas próprias agendas.

Assim, a construção do jornalismo esportivo não se apresenta como algo independente, nem o agendamento demonstra-se unilateral. Uma vez que simplesmente medeia relações, ainda que produza sentidos orquestrando falas. Borelli finaliza o artigo dizendo que “conhecer o campo que se reporta é condição fundamental para uma melhor produção da informação em busca de maior credibilidade”.

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