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Por dentro do jornalismo esportivo

25/09/2010

Jornalismo Esportivo, de Paulo Vinícius Coelho. Editora: Contexto

Cassio Borba de Lucas
cassioborba@gmail.com

No livro “Jornalismo Esportivo”, Paulo Vinícius Coelho disseca as características da atividade na contemporaneidade, no passado e faz sugestões para o futuro, sempre tendo como base o que é feito no Brasil. O paulistano PVC começou a carreitra aos dezoito anos. Chegou à Placar em 1991, fundou o Lance! em 1998 e finalmente chegou na ESPN Brasil em 2002, onde é comentarista e chefe de reportagem.

A introdução histórica é feita no primeiro capítulo, no qual apresenta peculiaridades interessantes que repercutem até hoje: em 1925, o futebol já era o esporte nacional, sendo o Brasil bicampeão sul-americano. No entanto, o espaço dedicado à modalidade era mínimo, sendo o turfe o mainstream do esporte, que, em geral, não tinha grande espaço. Se o espaço aumentou, o mesmo não aconteceu de forma considerável com os salários, além de haver um aumento considerável na concorrência. PVC rememora também a maior relevância do “romance” na crônica esportiva de meados do século passado. Para ele, deve haver uma disputa sadia entre fato e poesia, romance no jornalismo esportivo, como verificava-se nos textos de Nelson Rodrigues e Armando Nogueira. Defende que alguns ídolos modernos foram “jogados na vala” por uma cobertura tão “desprovida de paixão”, como Rivaldo, Ronaldo, Romário, Bebeto e Dunga.

Quando trata do mercado, o autor lembra do boom da internet em 2000 e do drama dos que abandonaram outras mídias e logo viram seus sites contratantes irem à falência. Aponta também a derrocada do rádio, grande mídia do esporte nos anos setenta. Em outro aspecto, porém, vê características positivas: a mulher no jornalismo esportivo. Se até o começo dos setenta eram coisa rara, muito mudou até hoje: os salários são igualitários, diferente do que acontece em várias outras profissões, e o preconceito é restrito – bastante distante do praticado por Oldemário Touguinhó, que, nos velhos tempos, se negava a entregar suas apurações a qualquer empregada do Jornal do Brasil.

Mas a crônica esportiva não se restringe a futebol, e “ai de quem pensar” assim. A meta não é ser jornalista de futebol, de basquete, tênis ou qualquer outra modalidade. Não é senão ser jornalista: aquele que se dedica a transmitir informações da melhor forma possível. E para tal, vale experiência e prática, conforme Coelho demonstra tomando de empréstimo a Mauro César Pereira, colega de ESPN, a frase “ninguém entende mais de esporte do que um garoto de doze anos”. O candidato à jornalista esportivo, às vezes, nem sabe que o é. Mas, sendo apaixonado pelo assunto desde cedo, vai se especializando, naturalmente, e graduando-se sem perceber numa área que muitas vezes requer extensa experiência. A diferença entre o menino e o adulto formado é que este não cai no erro tão facilmente. E faz um alerta para futuros profissionais: que não passem, jamais, a pensar serem maiores que a notícia. “Parece o limiar da loucura, mas é mais comum ver jornalistas sofrendo desse mal do que se imagina”.

PVC critica aqueles que veem o jornalismo como pura técnica: é um adepto da boa história. Destaca isso como parte da propedêutica do bom cronista esportivo, e afirma que o que se vê atualmente é a “ditadura do exato oposto”, com valorização do conhecimento específico da profissão sem a miscigenação necessária para criar o amálgama de qualidades e tipos de carga pessoal sem os quais, prega, não se criará uma boa redação. Paixão e criatividade são palavras constantes nos seus vocabulário e pensamento. Talvez por aceitar tão grandemente a influência de ambos, e da sensibilidade em geral, não esconde: não há jornalista de futebol que não tenha um time de infância. Além disso, entrega alguns colegas de profissão (entre os quais Ruy Carlos Ostermann: “embora não diga publicamente, é sabido que seu coração é azul”).

Quanto à atividade jornalística na TV, o autor taxa logo: a função do locutor é essa mesmo que eles exercem: levar o espectador à loucura com longos gritos de gol que, apesar da emoção transmitida, são, conforme Juca Kfouri, supérfluo. O gol está ali, o torcedor não é burro. Mas, segundo PVC, a frieza e a objetividade devem vir do comentarista. Ademais, trata do histórico dos direitos de transmissão dos principais campeonatos de futebol na televisão brasileira – sem deixar de alfinetar a Globo e a SporTV por usurparem transmissões da ESPN.

PVC, nos capítulos finais, trata da relação do jornalista com a fonte. O convívio com jogadores de futebol não é fácil, e não se deve esquecer o profissionalismo. Uma opinião interessante é a que dá sobre o furo jornalístico: ele não é mais fundamental. O receptor poucas vezes sabe quem lhe transmitiu primeiramente a notícia. Cabe, sim, fazer a análise mais detalhada e qualificada.

Para finalizar, o jornalista analisa alguns casos e nos fornece a certeza de que sua experiência é inquestionável e didática. Ao destrinchar, por exemplo, o processo de nascimento e solidificação da marca Lance!, dá, implicitamente, sugestões a qualquer foca interessado. “Jornalismo Esportivo” é um livro simples, escrito em linguagem coloquial, que se pode ler mesmo em uma tarde. Mas que traz lições de grande valia, não só para o repórter esportivo, mas para interessados em jornalismo em geral.

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