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O futebol no seu mais sublime estado

23/09/2010

Eduardo Galeano. Foto: sem crédito

Matheus Kern
matheuskern@hotmail.com

Não existe tradução mais poética das pitorescas histórias do futebol do que a retratada pelas mãos do escritor uruguaio Eduardo Galeano, em sua obra prima intitulada “Futebol ao Sol e à Sombra”, lançado em 1995, mas com edição atualizada no outono de 2009. O livro tem o poder de captar o fascinante universo de perdas e conquistas do esporte através da história e das histórias que se passam dentro e fora das quatro linhas.

É nas primeiras linhas do livro que Galeano faz questão de já conquistar a empatia do leitor, resumindo seu amor pelo futebol de uma maneira muito simples, porém apaixonante:

Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos campos de meu país… Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico:

– Uma linda jogada, pelo amor de Deus!

É impossível não se apaixonar pela prosa envolvente e pela forma como o texto flui por entre as páginas da obra, lembrando a subida de um ponteiro direito entre fintas e dribles desconcertantes em direção ao gol adversário. A forma escolhida por Galeano para relatar suas memórias futebolísticas não poderia ser mais acertada: a crônica. Em textos curtos e com título próprio, ele nos faz saborear uma pequena história, cheia de poesia, e não há escolha se não pular para o próximo, para matar a curiosidade dos olhos do que está por vir, através da simplicidade (e genialidade) de criação do escritor uruguaio.

Nas primeiras crônicas, Galeano explica algumas das características básicas do futebol, como “O Jogador, O Árbitro, O Goleiro e O Gol”. É, de certa forma, impressionante perceber a riqueza com que ele talha cada uma dessas “características básicas”, e o único pensamento que resta é “como eu nunca havia visto isso desta forma?”. Para melhor explicar, segue um trecho da crônica “O Torcedor” :

… Enquanto dura a missa pagã (o jogo), o torcedor é muitos. Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores, todos os juízes estão vendidos, todos os rivais são trapaceiros. É raro o torcedor que diz: “Meu time joga hoje”. Sempre diz: “Nós jogamos hoje”. Este jogador número doze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música.

Prestem atenção ao último parágrafo desta crônica, no qual ele descreve o pós-jogo:

Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval.

Repararam na pura poesia da construção do texto de Galeano? É assim que ele vai levando o leitor nessa viagem chamada futebol. Mais adiante, algumas páginas depois, o uruguaio começa a nos apresentar a história deste apaixonante esporte. A criação do futebol, suas mudanças através do tempo, os matchs entre os marinheiros ingleses nos portos sul-americanos, os primeiros craques e os primeiros grandes times deste lado esquecido do mundo, além da história das Copas do Mundo através do olhar de Galeano, de 1930 até 2002.

Futebol ao Sol e à Sombra, de Eduardo Galeano. Editora: L&PM.

O seu Uruguai campeão das Olimpíadas de 1924 e 28, campeão também das Copas do Mundo de 1930 e 1950, a Argentina de Di Stéfano e o Brasil de Pelé. Todos eles trazidos aqui como personagens deste livro, e descritos com a precisão de um lançamento de Rivelino. Essa viagem pelo tempo vem como um filme, emocionante para quem vivenciou e surpreendente para aqueles que não viveram esta época. Através das páginas, surgem também Maradona, Zizinho, Didi, Garrincha, Obdúlio Varella – o carrasco uruguaio de 1950 -, o aranha negra Yashin, Leônidas, Platini, Domingos da Guia, Friedenreich e muitos outros craques, todos eles protagonistas e mostrados nos seus momentos de esplendor e desgraça.

Nós, brasileiros, nascemos e vivemos o futebol diariamente, através do puro e simples jogo de rua entre amigos, no ler o jornal de trás para frente diariamente para sabermos o que se passa com o time do coração, no vestir da camisa oficial para sair à rua após a grande vitória da noite anterior, na dor inexplicável que sentimos com a derrota na grande decisão. A paixão pelo futebol está no nosso sangue, não há como negar. E ao ler “Futebol ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano, parece que estamos diante de um monumento erguido especialmente para ela. Não é preciso ser um apaixonado pela bola para apreciar esta saga, basta ser um apreciador da grande literatura. Mas caso você seja mais um destes milhões de crentes seguidores da religião chamada futebol, esta é a sua Bíblia.

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