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Sobre notícias e fatos: a especulação no jornalismo esportivo

22/09/2010

A Rádio Itatiaia ocupou o seu espaço com as mais diversas especulações acerca do América Futebol Clube. Foto: WikiCommons

Guilherme Daroit
@daroitguilherme

No artigo “Sobre notícias e fatos: a especulação no jornalismo esportivo”, os autores Bruno Souza Leal e Tadeu Meniconi escrevem em relação à cobertura dada pela Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, ao América Futebol Clube, da mesma cidade, em maio de 2006. No período, o tradicional clube se encontrava há mais de sessenta dias sem jogos oficiais após ter sido eliminado do Campeonato Mineiro, e sem perspectivas de novas partidas diante da incerteza de sua participação na Série C do Campeonato Brasileiro, que começaria apenas em julho.

Segundo os autores, durante todo o mês de maio, sem campeonatos e jogos, que são a base da cobertura esportiva brasileira, o setorista de América do programa “Turma do bate-bola”, da Itatiaia, ocupou o seu espaço com as mais diversas especulações acerca do time, muitas delas contraditórias entre si e com praticamente nenhuma sendo confirmada depois. Mesmo assim, a audiência do programa não diminuiu nem contestou o fato de as notícias dadas serem claramente fundadas em especulações e criações e não em fatos reais, que teoricamente seriam a “matéria-prima” do jornalismo.

Esse quadro não é incomum e muito menos restrito à Rádio Itatiaia. Principalmente em dezembro e janeiro, período de férias dos clubes, essa situação se repete por todas as rádios do país, que não diminuem seu espaço para o futebol na grade mesmo com a óbvia diminuição de fatos referentes ao clube em seu tempo de descanso, sempre preenchido com especulações.

Sempre segundo os autores, essa onda de noticiários baseados em especulações e não em fatos concretos sem prejuízo na relação ouvinte/meio acontece por vários motivos. Um deles é o fato de que, citando Muniz Sodré, “notícia é aquilo que os jornalistas acham que interessa aos leitores, e, portanto, notícia é aquilo que interessa aos jornalistas”, ou seja, muitas vezes o que decide do que será composta a notícia não é a existência ou não de fatos concretos, mas sim o modo de pensar ou agir da empresa de comunicação que a noticia, como os manuais de redação ou, como é também no caso da Itatiaia, a transferência de pensamentos e experiências dos funcionários mais antigos para os mais jovens.

Aprofundando mais no exemplo da rádio mineira, os autores lembram que a Itatiaia sempre foi marcada por um grande teor pessoal do seu dono na sua linha editorial, transformando a estação em defensora dos ideais mineiros, tratando sempre dos assuntos locais, falando com sotaque característico da região e, com isso, se tornando uma “amiga” dos mineiros, seus ouvintes, e resistindo às investidas de grandes redes.  Isso acontece, também, na cobertura de futebol da empresa, que se propõe a falar exaustivamente dos clubes do estado em detrimento aos de fora, mesmo que não haja fatos suficientes para isso, como no caso de maio de 2006 para o América.

Portanto, se torna mais necessário preencher o tempo com notícias sobre o clube, que é o que esperam os ouvintes, do que se preocupar com a veracidade das informações transmitidas. No rádio então, essa relação se acentua, já que, diferente dos meios impressos ou da televisão, o rádio sempre lhe é mais amigável, porque fala diretamente para o seu ouvinte, como se fosse único, e garante uma relação maior de credibilidade, além de ser importante como companhia, como um amigo efetivamente, o que leva o ouvinte a se contentar em apenas ouvir a voz do locutor conhecido, a sua estação preferida que ele mesmo escolheu por um motivo qualquer, independente do que efetivamente esteja sendo dito.

Por isso, ao contrário do que poderia se pensar em um primeiro momento, ao veicular essas notícias baseadas em especulações e não em fatos, o jornalista não pode ser acusado de amadorismo ou de mau profissional; eles está sendo, isso sim, muito profissional, a partir do momento em que os meios de comunicação se tornaram empresas, ao garantir que a sua mercadoria (a notícia) esteja indo ao encontro do gosto dos seus clientes. Estaria sendo um péssimo profissional se, pelo contrário, desistisse de veicular notícias sobre o América porque não encontrou fatos relevantes para tal, o que desagradaria ao ouvinte, acostumado com o bloco de notícias sobre o clube, e também abalaria a relação de credibilidade que o ouvinte tem com o repórter, que seria julgado incompetente por não achar notícias naquele dia.

Dessa forma, concluo que o problema (sim, para mim é um problema) da onda de especulações sem fundo de verdade que todo fim de temporada assola a imprensa esportiva brasileira é antes de tudo estrutural, da organização dos veículos de comunicação como empresas e da relação estabelecida com seus clientes a partir disso, do que má fé ou despreparo de seus funcionários. O tempo de cada setor existe e precisa ser preenchido, e pra lutar contra isso apenas resta ir direto na fonte, modificando a estrutura empresarial da comunicação atual, o que não deve acontecer tão cedo – se é que algum dia vai acontecer.

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