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Notícia Arte: afinal, o que o leitor quer com isso?

22/09/2010

Copa de 70: a imprensa iniciou um processo de transformação abrindo mais espaço para a cobertura do futebol que impulsionava o Brasil. Foto: sem crédito

Francisco Prato
chicojornal@gmail.com

O futebol teve diferentes valores em sua história no Brasil. Para os interesses políticos, foi ferramenta de unificação nacional na tentativa de ativar a unificação do país durante a ditadura militar. A cobertura da imprensa esportiva na Copa do Mundo de setenta não seguia os padrões atuais e os jornalistas não assinavam suas reportagens com medo da repressão. A cobertura era isenta de comentários e não havia tanto interesse no futebol como agora.

A partir da vitória e conquista do tricampeonato, com uma das melhores atuações da Seleção Brasileira em toda a sua história, a imprensa iniciou um processo de transformação abrindo mais espaço para a cobertura do futebol que impulsionava o Brasil e os brasileiros para uma nova era de negócios milionários e valorização de jogadores. Mas somente na década de oitenta o formato para apresentação do conteúdo teve sua primeira mudança quando além da cobertura normal dos fatos esportivos se iniciou a entrada de artistas, escritores e cronistas misturados com a notícia esportiva, criando um novo tipo de abordagem singular.

Segundo Foucault, o discurso de um escritor, filósofo, artista, cronista atingirá o status de “função autor” quando é recebido de maneira especial pelo seu público. Um contraste com está ideia está no manual de redação, pulverizado nas redações desde a década de oitenta e formador do texto padrão na cobertura do jornalismo esportivo. Segundo o manual, a isenção de comentário ou opinião a partir do jornalista é a regra básica para descrever o acontecimento.

Com a cobertura pela televisão de grande parte dos campeonatos, a notícia esportiva teve de se adaptar e se expandir, incluindo além dos fatos ocorridos no jogo outro ponto de vista dado por alguém que não especificamente pertence ao cerne jornalístico, mas uma pessoa conhecida e com boa imagem entre o público, um criador de opiniões. Além de opinativos, os textos escritos durante as copas do mundo desde então começaram a entrar também na camada ficcional da literatura, trazendo eventos que realmente não existiram como misturar um acontecimento pessoal do escritor a tal jogador ou fato, relembrando de maneira nostálgica um fato real tratado mais como gancho do que como o foco da história.

A aceitação do leitor se deve principalmente à identificação com o que o autor da crônica ou do texto escreve no jornal. O leitor já dispõe de sua própria opinião sobre tal acontecimento do jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo, mas ele procura se assegurar de outro ponto de vista que ainda desconhece e que vai afirmar ainda mais a sua própria opinião, fazendo assim com que fique mais seguro a respeito do que pensa. Diante de uma notícia comum, não existe nenhuma possibilidade de afirmação do leitor que termina restrito a sua própria opinião como profissional alheio ao jornalismo, mas no momento em que alguém que não pertence exatamente ao jornalismo, mas sim a outra camada da comunicação, coloca seu pensamento em exposição, causa um impacto naquele que lê e por consequência uma aprovação ou uma reprovação.

Indiferente se for aprovado ou reprovado, o seu comentário é marcante, diferente da pura e simples narração do que já aconteceu e já foi assistido. O escritor, artista, músico, cronista, traz um leque de opções infinitamente variáveis e criativas que contrastam e batem de frente com a notícia imparcial. Tornando-se mais humano, a leitura ganha outro sabor, trazendo para perto algum acontecimento que poderia morrer já na saída dos gramados, e isso não se restringe apenas ao futebol, mas a todos os esportes de ampla cobertura pela imprensa. Na Olimpíadas de 2008, o nadador norte-americano Michael Phelps virou o foco de questionamento trazendo a tona não só as suas peripécias na piscina como também se ele estava utilizando anabolizantes ou algum outro medicamento, passando o foco para a cobrança dos nadadores brasileiros que pouco podiam fazer frente a Phelps.

Exemplo desta esfera criativa da comunicação no Rio Grande do Sul, David Coimbra descreve diferentes momentos da sua vida ligados a fatos passados e recentes do futebol. Seu texto é grande trunfo do jornal Zero Hora no meio das páginas esportivas e atrai a atenção de todos os amantes do futebol. Além da crônica, a charge no jornal é outra forma de comunicação que expressa sem palavras uma opinião bem formada.

Da mesma forma, a coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo fala sobre assuntos diversos – inclusive futebol – com esse ponto de vista de fora da notícia. Essa identificação humana aproxima o leitor do personagem falado, que pode então ser visto de maneiras diferentes sem uma verdade única, abrindo o espaço para comparar as situações como metáforas e tentar explicar o acontecido em uma linha mais flexível e não tão rígida e absoluta.

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