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A notícia é um bom negócio. E a especulação?

21/09/2010

Uma especulação recente e não confirmada do jornalismo esportivo: "Neymar poderia ir para o Chelsea". Foto: Editora Abril

Maria Fernanda Cavalcanti
mariafernandamc@hotmail.com

Nada que é denominado “futuro do pretérito” pode ser muito confiável. Pensa aí, o futuro do passado é o que? O hoje? O ontem? Segundo o Wikcionário é um “tempo verbal usado para indicar hipótese, incerteza e irrealidade”. Resumindo, pode ser tudo e pode ser nada. Para quem não está lembrando bem das aulas de português, dou alguns exemplos (ainda fictícios) não muito distantes das manchetes que vimos por aí nos últimos meses: “Robinho teria assinado contrato vitalício com clube turco” ou “Kaká estaria se aposentando dos gramados, garante imprensa espanhola”. Aquele verbinho, ali, terminado em “ia” é o cerne da maior prática do jornalismo esportivo: a boa, velha, irritante e eterna especulação. Um “jornalismo” estranho, sem suor.

Há quem diga que ela é necessária, pois é uma forma de mostrar que na prática o jornalismo esportivo diário é diferente da teoria. Bruno Souza Leal, em seu artigo “Sobre notícias e fatos: a especulação no jornalismo esportivo”, demonstra ser apoiador dessa tese. O autor apresenta uma outra visão a respeito desse tão querido costume utilizado pela imprensa, afirmando que por meio da especulação pode-se ter noção de que o “jornalismo real” está longe das ideologias dos livros. Aí a queda do diploma para jornalistas faz todo o sentido, porque ficar quatro anos na Academia para aprender algo que “na prática” é o oposto do que foi mostrado em sala de aula, realmente, é uma baita inutilidade. Mas o que está sendo, em parte ignorado pelo autor, é que nós, comunicadores, que construímos a tal prática do jornalismo diário – mas isso fica para mais tarde.

No texto, Leal apresenta e relata a verdadeira aventura de um repórter setorista obrigado a fazer quatro boletins diários para a tradicional Rádio Itatiaia, de Minas Gerais, sobre o falido América Futebol Clube, em 2006.  A equipe já estava a um longo período sem jogar e sem perspectivas. Nesse contexto, o repórter e todos os outros integrantes do programa “Turma do bate-bola” – para qual os boletins eram destinados – começam a especular sobre transferência de jogadores, parcerias com outros clubes e agentes, visto que a principal “matéria-prima” do jornalista, o fato noticioso, não existia.

Se o tempo precisava ser preenchido e não havia informação para passar, nada mais natural que especular – esse é o pensamento imediato. A prática já parece tão normal e inofensiva que os próprios jornalistas não se dão conta de que isso vai de encontro com “o compromisso social com a verdade dos fatos” que os profissionais da informação carregam, ou deveriam carregar. Junto a isso, há uma conivência inconsciente por parte do público que assimila o ritmo imposto pela mídia e passa a assumir uma falsa ideia de identidade com os programas de notícias e, consequentemente, com as empresas de comunicação. Assim, o público começa a entender que “aquilo que seria, então, ‘banal’, ‘trivial’ ou distante da ‘verdade dos fatos’ não merece ser visto como um ‘deslize’ ou signo de descuido e, sim, como elemento fundamental no ritual cotidiano de (re)encontro”.

O autor relembra que desde o momento em que os veículos de comunicação passaram a ser grandes conglomerados comerciais da informação, a notícia se tornou um produto valioso e extremamente rentável, que precisa estar circulando. Nesse ponto, o que é mais alarmante é que o jornalista passou a se importar mais com a entrega e com a quantidade do produto do que com o conteúdo dele. Os valores que definem um bom ou mau jornalismo, segundo Leal, estão sendo moldados pelas próprias emissoras que distribuem cartilhas e manuais em suas redações, e não mais pelo senso crítico individual. O autor vai ainda mais longe, e nesse ponto não há o que questionar, dizendo que “em consonância com a rede noticiosa construída pelas empresas, os jornalistas tendem a moldar o mundo ao tempo dos noticiários e do ritmo de produção no qual estão integrados”. Mas o que assusta é saber que essa identidade e controle que os conglomerados assumem sobre o ritmo do mundo como um todo está baseado, cada vez mais, sobre notícias rasas, especulações e informação de pouquíssima qualidade, porém altamente comerciais.

No final do seu artigo, Leal faz um apanhado e deixa claro que em veículos tradicionais, como a Rádio Itatiaia, a identificação do ouvinte com o meio é tanta que a especulação se torna perdoável à medida que os programas entretêm o público e mantém o elo fortalecido a cada dia, seja por fatos noticiosos, seja por mirabolantes especulações. Esta rotina também pode ser tolerada, segundo o autor, pela questão prática do “jornalismo real” feito diariamente pelos setoristas esportivos, que precisam produzir material para suas emissoras também nos dias em que não há muito o que se dizer sobre os clubes.

Com esta conclusão, eu, humildemente, discordo do autor. A prática da especulação dentro de qualquer área jornalística não deveria ser tolerada. Se existe um determinado tempo dedicado a “x” assunto por questões econômicas, eu não condeno as emissoras – que de maneira complexa se encaixam  no sistema capitalista em que vivemos. Agora, que este tempo seja usado da forma mais qualificada possível.  Acredito que sempre existe algo interessante/importante para se dizer sobre qualquer assunto, sem utilizar especulações ou até informações falsas – como acontece corriqueiramente na imprensa.

Para exemplificar, lembro de uma situação que vivi esse ano. Sentada na frente do computador, às nove da noite do dia vinte de julho, recebo um e-mail. Nele, um pedido com urgência de um artigo comparando Neymar, Robinho, Ronaldinho e Ronaldo, no período em que estes tinham os mesmos dezoito anos de vida que o atacante santista vive hoje. A especulação de que Neymar estava praticamente fechado com o Chelsea provocou um alvoroço total na já, originalmente, alvoroçada imprensa inglesa. Em minutos, a english press lotou as manchetes esportivas com fotos do brasileiro e se questionavam se era mesmo a hora do menino desembarcar em terras tão frias como as da Grã-Bretanha. Certamente, a preocupação dos editores naquele momento tinha pouco ou nada a ver com o rendimento do jovem atacante no futebol inglês. Sem nenhuma surpresa, obviamente, era outro rendimento que estava na cabeça dos chefes de redação. Eles tinham em mãos o que todos os comerciantes buscam: um bom produto para um grande mercado consumidor. As especulações ao redor da chegada de Neymar eram como pedaços de carne lançados aos famintos torcedores do Chelsea pela sempre generosa imprensa inglesa. Assim fatiado em pequenas porções era tão simples e natural digerir tudo aquilo que até alguns torcedores dos Reds deram suas beliscadas.

Mas o meu editor, sentado a mais de dez mil km de distância de mim, optou em usar uma ferramenta tão barata quanto uma nova manchete em cima da velha especulação. Pediu então este artigo comparando as recentes estrelas do futebol nacional que migraram para a Europa como “meninos prodígios da bola”, no ano em que cada um tinha dezoito anos, a idade de Neymar. “A ideia é legal, eu gosto” foi o meu pensamento e basicamente é o que Muniz Sodré, citado por Leal em seu artigo, afirma: “[notícia é] aquilo que os jornalistas acham que interessa aos leitores e, portanto, notícia é aquilo que interessa aos jornalistas”. Um artigo não carrega respostas, nem é essa a função do jornalista. Naquele momento, o editor quis, inteligentemente ou não, criar um conteúdo diferente e exclusivo, distante das repetidas especulações que já estavam cansando os leitores. Assim, requisitou algo novo dentro da mesma informação vendável “Chelsea quer Neymar” para alguém que, invariavelmente, estava sendo pago para estar gastando energia mental e física naquele período para o seu veículo. Desse modo, não sem dificuldade, agrupamos informações e dados interessantes do passado, fizemos a conexão com o debate atual e pudemos propiciar aos nossos leitores uma nova – e mais livre – perspectiva daquilo que já estava em pauta há semanas nos noticiários.

Passada a neurose por quantidade de informação por parte dos veículos, acredito que a demanda por conteúdo de qualidade tenda a aumentar e a forçar uma mudança de hábito dentro da parcela acomodada da imprensa-amiga-da-especulação. Encontrar um olhar diferente, porém sincero, sobre as massantes e repetitivas notícias diárias parece mais interessante do que enumerar manchetes vazias, não só do ponto de vista econômico, mas, principalmente, do criativo e social. Só depende dos produtores de conteúdo estarem abertos, informados e dispostos o suficiente para levar isto até o público, com menos futuros do pretérito e mais suor – assim mesmo, como ensinavam na faculdade.

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