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O futebol nas Copas do Mundo e a cobertura da grande imprensa brasileira

20/09/2010

Copa de 70: a cobertura esportiva encontrou, na televisão, o seu maior aliado. Foto: Editora Abril

Bárbara Gallo
babi_wg@hotmail.com

José Carlos Marques, em seu artigo intitulado “Futebol de celebridades: o jornalismo de referência no Brasil e a cobertura das últimas Copas do Mundo”, perpassa os principais jornais do eixo Rio-São Paulo, denominada grande imprensa brasileira, sob os quais desenvolve um estudo direcionado ao noticiário – matérias e reportagens – esportivo a partir das últimas edições da Copa do Mundo de futebol. Através dos veículos O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, surge o nicho dos colunistas/cronistas, os quais se tratavam de personalidades reconhecidas pelo grande público (João Saldanha, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues), com a finalidade de incrementar os cadernos especiais diários e alcançar aos leitores a informação mediante um tipo de discurso e um tipo de formato inovador.

No contexto do advento da televisão, quando o rigor e a censura imperavam na sua forma mais extrema durante a ditadura militar, a cobertura esportiva encontrou, na introdução do novo meio de comunicação, o maior aliado no final do século XX. Isso porque a presença da televisão, enquanto agente midiático, favorece a percepção do universo imagético que circunscreve o futebol. Tal vínculo foi bastante utilizado pelo governo na Copa de 70, de maneira que as propagandas ufanistas contribuíssem para a unificação nacional territorial e ideológica.

Paralelamente a esse fenômeno, cresce o número das equipes de jornalistas dos veículos impressos, tornando-se mais bem estruturadas, auxiliadas por modernas tecnologias e alvo de investimentos e patrocínios. O desenvolvimento dos conglomerados de comunicação no âmbito das empresas de mídia impressa foi operado no sentido de dar espaço ao futebol nos cadernos esportivos. A forte concorrência com a televisão foi justificativa para o emprego de uma série de recursos, sendo o mais relevante deles o recrutamento de escritores, jornalistas, políticos e artistas famosos (celebridades) para escrever sobre a participação da Seleção Brasileira nas Copas. As análises pessoais se originam com o intuito de se contrapor ao discurso objetivo posto em prática nos grandes jornais. Prontamente, os textos publicados se viram demasiadamente imbuídos de manifestações literárias e ficcionais lingüísticas. Daí deriva-se o termo “cronista” de futebol, visto que o autor não era mais apenas um “colunista” ou “articulista”.

Foucault (1969) enquadra esse tipo de situação e procura nomeá-la como “função autor”, a qual se “estabelece pela existência, circulação e funcionamento de alguns discursos no seio de determinado público” (apud. MARQUES, 2004, p.47). Isso significa que o discurso atingirá esse status quando for reconhecido pelo seu público, singularizando-o. A narrativa e o espetáculo do jogo são subjetivamente concebidos, expressando a relação entre a criação imagética e o oficio do cronista, cujas construções causam fascínio nos leitores.

Até meados de 1980, poucos jornalistas se ocupavam da cobertura futebolística nas Copas do Mundo; foi a partir da década de 90 que se tornou possível perceber a abundância de profissionais destinados a essa função. Fez-se da crônica um gênero hibrido, no qual se ocultavam os limites e as diferenciações entre jornalismo e literatura, favorecendo a criação de uma espécie de ficção literária em que os escritores “convidados” tinham liberdade para desviar o foco do rigor jornalístico e adicionar aos fatos e noticias contornos ficcionais. O autor ressalta que esse fato se deve, em grande parte, a despotencialização da linguagem por meio da imposição de manuais nas redações, buscando sempre a noção isenção da realidade. O discurso lírico, por sua vez, conseguiu não só sobreviver como também se reproduzir, originando uma tradição literária na imprensa esportiva brasileira, cujo maior expoente é Nelson Rodrigues com suas narrativas dramático-literarias sobre futebol.

É importante notar que a construção destes tipos de textos se realizava através de procedimentos lúdicos onde prevaleciam o humor e a ironia e as funções metalinguísticas e conativas. Além disso, o tratamento familiar e a aproximação com o leitor permitem o aparecimento de um estilo que contem estratos coloquiais da língua portuguesa. Vê-se que os cronistas eram responsáveis pela concepção de uma “construção social de dois níveis” em relação às competições esportivas atuais, de acordo com Bourdieu (1997). Para ele, jogador e performance são um espetáculo produzido em duas partes: na primeira parte estão os agentes diretamente envolvidos na realização/condução do jogo (atletas, juízes, treinadores); na segunda, está a produção do espetáculo midiático – discurso radiofônico, televisivo ou literário.

O estudo de José Carlos Marques identificou oito categorias de profissionais envolvidos na produção de textos esportivos nos quatro principais jornais brasileiros: o primeiro grupo – mais numeroso – é constituído por repórteres, redatores e editores de esporte que fazem matérias e reportagens, mas não chegam a assinar seus textos; o segundo, forma-se por jornalistas esportivos que assinam suas colunas nos cadernos esportivos (Juca Kfouri, Armando Nogueira), o terceiro e o quarto, compõem-se de cronistas dos cadernos de Cultura e escritores conhecidos do público e que são convocados extraordinariamente para participar da Copa (João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, Nelson Motta) e nas editorias de política e economia (Clóvis Rossi); o quinto se refere aos colunistas sociais, encarregados de cobrir o glamour dos eventos da Copa (Danuza Leão, Hildegard Angel) e no sexto se encontram os chargistas e humoristas; o sétimo grupo diz respeito as personalidades do esporte (jogadores, ex-atletas, técnicos) e o último aos escritores estrangeiros que escrevem excepcionalmente sobre futebol. Os primeiros estão preocupados com o rigor jornalístico, enquanto os últimos estão envolvidos com a produção de sentido e os textos subjetivos.

Mediante um levantamento e uma tabulação feitos pelo autor, nota-se que o jornal Folha de São Paulo foi o veículo que envolveu o maior número de escritores e cronistas na cobertura das Copas (51) e publicou a maior quantidade de textos, desde 1982 a 2002. O Globo surge logo atrás com 43 colunistas esportivos, seguido do Jornal do Brasil (38) e do Estado de São Paulo (35). Foi a partir da década de 90 que os cadernos esportivos começaram a inflacionar em decorrência da convocação e participação destes novos profissionais. Desta maneira, a “função autor” predominava em razão de quatro fatores: a apelação dos impressos para a publicação de textos opinativo-interpretativos visando combater a concorrência televisiva; a justificativa para os grandes investimentos e patrocínios aos cadernos esportivos aos oferecer um grupo de textos diferenciados; a presença de personalidades (celebridades) como elemento diferencial em se tratando da concorrência que regia os quatro jornais na busca de novos leitores e a conquista de um status pelo futebol, o qual se tornou fenômeno social, político, mercadológico, econômico e cultural.

Segundo Umberto Eco, o esporte é a aberração máxima do discurso fático – os quais são necessários para que a ligação entre os falantes se estabeleça – já que a discussão projetada sobre o espetáculo esportivo se limita à falação sobre o mesmo espetáculo. Assim, a discussão e o relato se remetem a falação sobre o esporte, e não sobre o esporte propriamente dito. Para Eco, atualmente o esporte é de essência discursivo sobre a imprensa esportiva, pois a não ocorrência de um evento esportivo que assim mesmo possui um relato por meio de imagens fictícias não gera nenhum tipo de alteração na sistemática estabelecida.

Traçado este quadro, destaca-se, finalmente, a presença dos cronistas coma finalidade de provocar um distanciamento do discurso jornalístico ortodoxo e superar o aspecto fático apontado por Eco. Esses profissionais são responsáveis por produzir textos poéticos e metalingüísticos, enriquecendo as páginas esportivas com contornos imagéticos e ficcionais e contrariando a lógica da objetividade e da neutralidade lingüística preconizadas na imprensa brasileira.

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