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Tenório, o guerreiro cego

02/09/2010

Antônio Tenório da Silva - Lutar judô, sobreviver como atleta e conquistar quatro paraolimpíadas é mais que superação, é heroísmo. Fotos: Divulgação

 

Thiago Tieze
ttieze@gmail.com

Assistir à pré-estreia de B1 – Tenório em Pequim, que entra em cartaz dia três de setembro, é uma lição de vida. Apresentado a alunos e curiosos no auditório da Fabico/UFRGS em 26 de agosto, o judoca Antônio Tenório da Silva, ou simplesmente Tenório, 39 anos, se fez presente na divulgação, acompanhado de Eduardo Hunter Moura e Felipe Braga, diretores do filme; e Gustavo Gama Rodrigues, produtor.

Muito bem executado e pensado, o que se vê e ouve tocam fundo. Tenório é, como todo herói, um exemplo. Começou no esporte aos sete anos e não se separou mais do quimono. O pai, Graciliano Tenório da Silva, guarda do Círculo Militar de São Paulo, que o levava às aulas de judô e comprava seu material esportivo, foi seu principal incentivador. O judoca perdeu a visão do olho esquerdo aos treze anos numa brincadeira com estilingues e mamonas, e do direito aos dezenove, numa infecção. A cegueira total não encerrou o sonho, a exemplo de Rogério Sampaio, medalha de ouro na categoria meio-leve em Barcelona, 1992, de representar o Brasil numa Olimpíada.

Classificado como B1, cego total, Tenório voltou ao tatame aos 21 anos, passou por uma readaptação e hoje é dono de um extenso e admirável currículo. São quatro medalhas de ouro em Paraolimpíadas, uma em Parapanamericano, um campeonato mundial, um paulista regular e, mais recentemente, um mundial de jiu-jitsu regular. Na coletiva realizada após a sessão, Tenório, a direção e a produção do filme falaram sobre a situação do esporte no país, as dificuldades para a realização do projeto, a falta de consciência dos patrocinadores, a evolução do esporte e a Olimpíada no Rio de Janeiro, em 2016.

Como surgiu a ideia do filme?
Felipe Braga: O Tenório é um personagem de documentário nato. Não sei como ninguém tinha feito algo com ele ainda. É um personagem muito interessante, um campeão. É um cara que há anos traz medalhas para o Brasil e abre novas frentes para o esporte brasileiro. Ele ficou muito exposto durante o último Parapanamericano e isso trouxe uma luz toda especial sobre os atletas brasileiros. A gente teve chance de ver, na época, o Tenório lutando muito bem, sempre de uma forma avassaladora, e ganhando. Só que nesse caso, tinha que ter um evento que tivesse alguma pertinência para o projeto do filme, no caso as Paraolimíadas de Pequim. Era a chance de, ao invés de fazer um documentário com depoimentos e entrevistas, correr atrás dele em ação e ver o que ele estava passando, vivendo e pensando até chegar a Pequim. Por isso mergulhamos e fizemos esse filme.

Tenório, a respeito da evolução do esporte paraolímpico no Brasil. O que tu percebes de diferente na estrutura e no treinamento desde o ouro de 1996, em Atlanta? E a questão do patrocínio, como está?
Tenório: Sobre o momento do esporte no Brasil, até 2004 a situação era uma. Depois da Agnelo Piva (Lei n° 10.264 de 2001, destina 2% da arrecadação bruta das loterias federais ao Comitê Olímpico Brasileiro e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro) temos uma situação completamente diferente, na qual 85% da renda vai para o COB e 15% vai para o CPB. Assim, temos o nosso centro de viagens internacionais, pagamento de técnicos e outras ações realizadas no Brasil. Ainda hoje, o judô paraolímpico está num universo muito pequeno, porque nós ainda não conseguimos atingir todo o continente brasileiro. Muita gente sequer sabe que existe o desporto paraolímpico dentro do país, mesmo com toda essa evolução de mídia não conseguimos atingir a deficientes que estão mais longe, o Brasil tem dezessete milhões de deficientes. Na questão de patrocínio, precisamos, ainda, de maior consciência empresarial. Os empresários não vêem a gente como fonte de primeira página. Claro, isso vai evoluir. Eu espero que até 2012, a palavra Olimpíada e Paraolimpíada andem juntas, porque ninguém fala em Paraolimpíada no Brasil. Pouca gente sabe que vai existir uma Olimpíada e uma Paraolimpíada em 2016.

Que dificuldades vocês encontraram para fazer esse filme?
Felipe: Além do dinheiro? (risos) Para fazer um filme, ter um pouco de ingenuidade é sempre bom, porque aí você não se depara com os problemas antes deles acontecerem, vai levando dia após dia. Afinal, não é fácil gravar um filme em três países, sendo que um deles é a China. Agora estamos tentando levar o filme ao maior número de espectadores possível. Em pouco tempo a gente percebeu que havia um universo muito rico, muito grande para retratar, e eles perceberam que tinha um grupo sério e interessado na vida deles. A gente não estava chegando para fazer uma matéria que geraria um encontro de meia hora, mas um longa metragem que estimava um contato de seis meses, que viajaria por três países. No momento que eles perceberam que a gente estava abrindo uma janela muito rica, muito boa para eles, começamos a contar com a ajuda dessa comunidade. Isso explica, na China, termos sido a única equipe do mundo a ter acesso à área de aquecimento, o backstage da competição.

Tenório, hoje tu consegues viver só do esporte sem precisar de outra fonte de renda? Em que momento se deu isso? E como foi a readaptação no judô?
Tenório: Eu tenho o grande privilégio de ser patrocinado pelas Loterias Caixa, entre outros. Ainda assim a fonte de renda é muito pouca, então eu tenho que dar palestras, estar num ginásio trabalhando com outros meninos em diversos projetos para complementar minha renda e ter uma sobrevivência digna, mas não é nada impossível. Acho que todo mundo tem suas limitações e seus problemas para resolver. No Brasil a gente só vive o futebol, e vai ser assim por um bom tempo ainda. O esporte amador acaba ficando esquecido num canto. Mas eu sonho, um dia, seja como dirigente ou esportista, viver apenas do esporte.

O filme desde o início aponta para um final vitorioso. Vocês cogitaram outro desfecho? Caso o Tenório fosse derrotado, ou sofresse alguma lesão?
Eduardo Hunter Moura: A gente tem, no final disso tudo, mais de duzentas horas de material. A partir daí, foi achar essa história que vocês viram aqui. Claro que a gente supôs, sempre, que ele poderia até se machucar e nem ir para Pequim. Quando começamos em abril ele estava inteiro, mas nada garantia que ele ia chegar a Pequim. Mesmo lá, nos primeiros dias, no treinamento, na véspera, nas primeiras lutas, tudo era uma tensão só. Tanto para ele quanto para a equipe. Nós estávamos à flor da pele. Claro que a gente tinha consciência de que tudo poderia acontecer, mas tínhamos a convicção de que o Tenório, mesmo perdendo em Pequim, já era um tricampeão. A essência da história dele não ia mudar muito, é claro que com a vitória o filme ficou muito mais emocionante, mais focado na ação, no desenvolvimento dessa medalha, dessa conquista, desse objetivo. Ainda assim, acho que o retrato dele como campeão não teria variado muito.

Tenório, o filme passa uma ideia de que tu estás sempre sozinho. Não que isso signifique solidão, mas independência. Quem foi o teu mentor em relação a isso?
Tenório: Foram meus pais. A gente não tinha nada e, para quem não tinha nada, o máximo que podia acontecer era ter um pouquinho mais. Eu tive esse aprendizado com a minha mãe, depois com o meu mestre também, quando meu pai me levou, aos sete anos de idade, para fazer judô. Eu comecei a ver um caminho para mim no judô. Saí da rua, continuava um moleque levado, mas apostei no professor, que era um educador também. Ele tinha uma personalidade muito forte, era capitão da polícia militar. Eu segui, peguei faixa marrom, preta, logo em seguida fiquei deficiente visual e muita gente me perguntou “onde que o judô vai te levar?”. Em 1992, em Barcelona, quando vi o Sampaio ganhar a medalha dele eu disse que um dia estaria lá. Muita gente deu risada, porque eu sou deficiente visual, mas eu já tinha voltado a treinar. Aquele sonho de representar meu país, de estar no meio do judô regular, me fazia acreditar. Outras pessoas acreditavam no meu sonho também. Todo sonho que você compartilha com os outros você consegue realizar, só depende do seu esforço.

Tenório, tu és um cara muito forte, tanto no lado psicológico quanto físico. Como você faz para visualizar o adversário?
Tenório: A gente viaja muito pouco para fora do país para competir. Nós encontramos os adversários uma vez por ano, no máximo. O técnico fica lá, na beira da área, gritando e te passando informação na hora da luta. Senão ele vê a luta e diz o que o cara faz, então você tem que mentalizar o golpe do adversário, a altura, o movimento que ele faz em cima do dojô. Tudo para você conseguir se defender e atacar ao mesmo tempo. Por exemplo, o técnico me diz “ele vai puxar e bater na sua perna”, então eu penso “vou deixar a perna, ela vem bater, eu vou tirar e vou jogar”, assim eu já estava com a tática feita. Cada informação que o técnico me traz é muito importante. O oponente é mais alto? Canhoto? Recua muito? Tudo para que eu possa desenhar o momento da luta na minha mente. É dessa forma que eu trabalho o judô, a minha concentração.

Há espaço na imprensa?
Tenório: Olha, quando você faz um feito grandioso, como desses meninos que estão aparecendo no Jornal Nacional, que estão disputando um mundial em outra região, ou quando a gente volta de uma competição internacional, encontra um bom espaço na mídia. Mas também amarga três longos anos de esquecimento. Esse é um fator que deveria ser repensado. Você vê, a Record hoje tem a grande responsabilidade de transmitir as Olimpíadas de 2016. Mas ela só fala em Olimpíada, não abre a boca para falar de Paraolimpíada.

Tenório, como foi assistir ao filme pela primeira vez?
Tenório: Eu assisti na ilha e depois mais duas vezes num festival, no total acho que vi umas quatro vezes. Eu achei maravilhoso. Voltar no tempo, repassar pelos barulhos, pelos meus amigos falando, voltar naquela seletiva em que eu tenho um menino, que se chama Magno e eu estou dando uma instrução para ele, ficando preocupado, entrando no hotel e procurando ele. Isso me traz boas lembranças e me traz, também, o posicionamento de me corrigir. Porque quando eu assisti ao filme pela primeira vez, na ilha, eu falei “Felipe, eu sou muito autoritário” (risos). Eu não percebia isso, que eu falava com as pessoas daquela forma e, vendo o filme, percebi que tinha que mudar o jeito de falar com as outras pessoas, de cobrar os meus atletas. Cada vez que eu assisto ao filme eu aprendo cada vez mais sobre a minha postura, minha forma de me posicionar, eu gosto muito.

Vocês têm preocupação com a pessoa deficiente visual que vai ver esse filme?
Felipe: São duas preocupações diferentes, mas juntas. A primeira foi com a engenharia de som do filme, que foi muito cautelosa e criativa. Falávamos para o nosso técnico de som que ele era, também, o diretor de fotografia, porque a fotografia do filme tinha que ser sonora. A gente teve muito trabalho com isso, mas foi bastante legal. A outra preocupação, que a gente ainda vai se deparar com ela, que é uma coisa que está começando agora, é a audiodescrição. Hoje mesmo a gente tava falando com uma pessoa que está passando por esse processo, que é muito interessante. Ninguém sabe ao certo como fazer, não há um “faz assim e pronto”. Porto Alegre tem uma vertente de pioneirismo nisso.

Tenório, quais são teus planos daqui para frente? Qual a tua sequência de trabalho?
Tenório: Eu vou querer é me aposentar com esse filme (risos). Eu tenho pensado, primeiramente, até pela minha faixa etária, tenho 39 anos, preciso pensar no meu dia a dia de treinamento. Competição por competição. Tenho que me programar para chegar bem em abril, no mundial da Turquia. Onde eu busco vaga para o Brasil. Hoje eu sou o quinto do ranking, tenho que chegar lá e ficar entre os três primeiros para conseguir uma vaga para Londres 2012. Se não conseguir uma vaga na Turquia, minha outra chance é o Pan de Guadalajara, no México. São essas duas competições que eu tenho que visar, para depois trazer a vaga para o Brasil e competir aqui dentro. Conseguir ser o primeiro na categoria, estar bem, sem contusões, para só então viajar e fazer uma boa competição em Londres, que está em segundo plano ainda. Não tenho previsão para parar, mesmo porque hoje o esporte é o meu maior meio de vida.

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