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Filosofia do videoteipe

14/07/2010


Marcio Telles da Silveira
tellesdasilveira@gmail.com

De todas as questões discutidas pela imprensa esportiva durante a Copa do Mundo, uma parece sempre mal abordada: o uso da tecnologia para evitar erros de arbitragem. O argumento dos “a favor” é que o mundo mudou muito desde que se instituiu a figura do árbitro, em 1868. Portanto, continuar preferindo o erro humano ao avanço científico é concordar com o continuísmo retrógrado da FIFA.

Os muitos que pensam assim têm apenas uma certeza: “não entenderam nada do futebol”, na frase clássica de Eric Cantona, dos mais cerebrais atacantes da história.

De tantas leituras, o futebol é assim como a vida: pode-se entendê-lo de diversas formas, dependendo de como e do quê se pergunta. Como disse Eduardo Galeano recentemente à Zero Hora: o assombroso no futebol, como na vida, é a “capacidade de sofrimento”. Sem sofrer – e sem algozes e injustiçados – a vida e o futebol não têm graça.

Instaurar artifícios tecnológicos, sobretudo o uso do videoteipe, é desmanchar muito da mitificadora propensão que o futebol tem de fazer sofrer. É trazer para dentro a interferência daqueles que estão de fora. Deus ex machina: como se Ele, ao observar as várias injustiças que nos acomete ao longo da vida, as corrigisse no momento em que nos alcançam.

Em uma mesa redonda durante a Copa de 1998, Gilberto Gil postulou a ideia de que a objetividade no futebol é relativa à percepção possível dos fenômenos e que, portanto, uma infração não existiria objetivamente, mas somente na ínfima fração de tempo em que é passível de ser percebida. Em outras palavras, á a mesma filosofia do esquecido Nélson Rodrigues, para quem “todo videoteipe é burro”.

O mundo indignou-se com a “hipocrisia” de Roberto Rosetti, mas ninguém percebeu o rodriguianismo de sua decisão: se nenhum dos quatro árbitros viu o impedimento de Tevez no momento em que este ocorria, a infração não existiu. Erradas estão as outras seis bilhões de pessoas, que puderam pausar, voltar e fatiar uma partida de futebol como se fosse laranja em laboratório. A máquina, meus caros, neste caso estava totalmente equivocada.

A justiça no futebol, como na vida, opera por caminhos tortos. Se o uso do VT fosse autorizado em 26/11/2005, a Batalha dos Aflitos seria apenas mais um Náutico e Grêmio. Que dizer, então, de Alemanha e Inglaterra? Precisou-se de 44 anos para se reparar um erro humano histórico – com outro erro humano histórico.

Aliás, os deuses do futebol não poderiam estar mais inspirados quando deixaram a maçã da discórdia nas mãos de um italiano. Até onde importa ao futebol, o videoteipe foi criado em 1961 por técnicos da italiana RAI, com o único objetivo de desmascarar as” tramóias” dos árbitros da Federação Italiana. A paranoia, como a pizza e os sistemas defensivos, fazem parte da vida de todo o italiano. Lá, existe até uma ideologia (científica, diz meu vizinho lombardo), que estuda “as coisas que estão por trás”, a dietrologia, cujo principal baluarte é o difamado VT – se a máquina viu o impedimento e você, amigo árbitro, não, é melhor mostrar o extrato bancário rapidinho.

Será que não estamos ficando todos italianos demais? Afinal, no futebol e na vida, a justiça pode tardar, mas raramente falha. Os deuses da bola estão lá em cima olhando pela gente.

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One Comment leave one →
  1. 15/07/2010 22:09

    Muito boa essa relativização da infração. De fato, se só o replay enxerga, não tem como o árbitro ter certeza. Não me agrada a ideia de parar o jogo a todo instante para olhar um replay e ver se foi ou não gol ou impedimento.

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