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Em busca da grande aventura

12/07/2010

Iniesta vibra com o primeiro título mundial da Espanha. Foto: Agência AP

Paulo Finatto Jr.
paulofinattojr@hotmail.com

De tanto ler histórias, um ingênuo espanhol passa a acreditar na bravura dos cavaleiros medievais e decide se tornar um. Para tanto, recorre a uma armadura enferrujada do seu bisavô, confecciona uma viseira de papelão e se auto-intitula Dom Quixote de la Mancha. Depois de tomar essas providências, monta em seu improvável cavalo e foge de casa em busca da grande aventura.

Certamente, não existem somente diferenças entre o maior clássico da literatura espanhola e o título conquistado na Copa do Mundo nesse domingo pelo país ibérico. Como Dom Quixote, a Espanha nunca teve o renome dos maiores cavaleiros e seleções europeias, como Itália e Alemanha. Entretanto, as recentes vitórias, sobretudo na Eurocopa 2008, credenciaram o time vermelho a competir na maior aventura do futebol mundial com reais chances de sucesso.

Durante as Eliminatórias, a Espanha consolidou o início da sua trajetória com um retrospecto invejável – dez partidas e dez vitórias – mesmo contra times de pouca expressão, como Bósnia, Armênia e Estônia. De qualquer forma, a seleção, montada a partir de Barcelona e Real Madrid, despontava como uma das principais favoritas ao título mundial. Aos espanhóis restava confirmar a expectativa e contrariar o retrospecto recente de decepções: em 2002 – quando caiu nas quartas para a Coreia do Sul – e em 2006 – quando deu adeus ao torneio nas oitavas-de-final.

Embora tenha viajado à África com a credencial de grande estrela da competição, a Espanha abriu o torneio com um susto. Na partida de estreia, uma derrota para a desacreditada Suíça. Da mesma forma, os espanhois não construíram placares de expressão contra Honduras e Chile, mas conquistaram vitórias importantes e apresentaram um toque de bola envolvente sob o comando de jogadores fundamentais, como o goleiro Casillas, o zagueiro Puyol, os meias Xavi e Iniesta e o atacante Villa, o maior nome da seleção vermelha.

Do mesmo modo, a Holanda destruiu os seus adversários nas Eliminatórias. O retrospecto do time – igualmente com 100% de aproveitamento – juntamente com os craques Sneijder e Robben, credenciava o time laranja a buscar o seu primeiro título mundial – após os fracassos em 1974 e 1978 – quando chegou tão perto. Durante a Copa do Mundo, a trajetória holandesa colecionou vitórias importantes, como a conquista de virada sobre o Brasil em meio às quartas-de-final. Certamente, a decisão entre Holanda e Espanha se mostrava de maneira natural com o crescimento de ambas as seleções ao longo dos últimos quatro anos.

No entanto, não houve um único destaque na partida decisiva. Do lado holandês, Sneijder e Robben não desequilibraram a favor do seu time. Do outro lado, o decisivo Villa – um dos goleadores da Copa – não deixou a sua marca na rede do goleiro Stekelenburg. Com um empate sem gol, o jogo precisou dos trinta minutos adicionais da prorrogação para o seu desfecho final.

No chute de Iniesta, Stekelenburg toca na bola, mas não evita o gol no fim da prorrogação. Foto: Agência EFE

Entre muitas jogadas duras, os dois times deixaram evidente o medo de atacar e de despertar a fúria do adversário. Como qualquer outra partida decisiva, o jogo contabilizou poucas chances verdadeiras de gol. Entretanto, uma jogada iniciada pelo reserva Fabregas deixou Iniesta, um dos principais jogadores da seleção vermelha, livre e de frente para o goleiro holandês. Depois do gol, quatro minutos separavam a Espanha do seu primeiro título mundial. Não havia mais nada que a Holanda pudesse fazer para modificar o placar.

Com doze amarelos e um vermelho, a decisão no Soccer City é a mais violenta entre todos os confrontos finais desde 1930. Na competição em que faltou o brilho individual de muitos nomes – como Rooney, Kaká, Messi e Cristiano Ronaldo – o torneio esbanjou emoção na sua última reta, com os coadjuvantes Uruguai, Gana, Paraguai. Se a Copa do Mundo de 2010 vai ficar marcada pela competição de grandes times e jogos fracos, os graves erros de arbitragem, sobretudo na partida entre Alemanha e Inglaterra, colocará algumas certezas em cheque para o próximo torneio.

De qualquer forma, não restam dúvidas sobre o mérito espanhol. A trajetória da equipe espanhola – magnífica nos últimos três anos – foi coroada de maneira justa nesse domingo, em Joanesburgo. Do ponto de vista estatístico, seria uma injustiça se o título mundial não fosse comemorado nas ruas da Madri, Bilbao, Sevilha ou Barcelona.

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