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Uma história de altos e baixos

10/07/2010

Comissão técnica de Dunga e Jorginho esteve por quatro anos à frente da seleção. Foto: Divulgação/CBF

Guilherme Araújo
guiaraujo1000@gmail.com

Em 24 de julho de 2006, através de seu site oficial, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou o nome de Dunga como novo técnico da seleção. O ex-volante assumia uma função inédita na carreira, até então caracterizada pelas vibrantes atuações dentro de campo.

Defendendo o time verde-amarelo, ele participara de três Copas do Mundo. Em 1990, na Itália, o revés diante da Argentina nas oitavas-de-final foi classificado como a derrota da Era Dunga por parte da imprensa nacional, e encerrou melancolicamente a primeira passagem do gaúcho na seleção.

Entretanto, pouco tempo depois, o técnico Carlos Alberto Parreira delegou a ele a função de comandar a equipe nas Eliminatórias do Mundial dos Estados Unidos. Obtida a suada classificação, Dunga firmou-se como o capitão brasileiro na luta pelo tetracampeonato em terras norte-americanas. Tido como burocrático e considerado a antítese do modelo de futebol do país, o time de Parreira contou sempre com a dedicação de Dunga no meio-campo e o talento de Romário no ataque para avançar na competição e encontrar a Itália na final.

A dramática decisão no Rose Bowl não registrou gols em noventa minutos, tampouco nos trinta de prorrogação. Nos pênaltis, o volante superou o goleiro Pagliuca e marcou o seu na vitória por 3 a 2. A retomada da hegemonia do futebol mundial estava garantida. Na cerimônia de premiação, ao erguer a taça, Dunga proferiu todos os impropérios entalados na garganta pela acusação de culpa no fracasso de quatro anos antes.

Já sem a obrigação de responder com título, o meio-campista seguiu atuando em seu clube, o Jubilo Iwata, do Japão. Sua inegável liderança nas quatro linhas seria considerada imprescindível em 1998 pelo técnico Mário Jorge Zagallo, que o convocou para a Copa do Mundo da França. Na semifinal, diante da Holanda, Dunga repetiria a cena americana, acertaria sua cobrança na decisão por pênaltis e comemoraria aos gritos e com socos no ar, em direção ao solo.

O penta, contudo, seria impedido pela melhor seleção francesa da história. Regidos por Zidane, os donos da casa mostraram-se constrangedoramente superiores e aplicaram 3 a 0. Terminava ali a trajetória de Dunga em Mundiais. Dois anos depois, ele encerraria a carreira no Inter, clube em que surgiu na década de oitenta.

Em 2006, o filme teve seu roteiro totalmente invertido. Apontado um ano antes do Mundial como favorito absoluto, o Brasil proporcionou uma das maiores decepções ao longo de sua história em Copas. Confiando sobremaneira no “quadrado mágico” formado por Kaká, Ronaldinho, Ronaldo e Adriano, a seleção abusou dos excessos no período anterior à disputa. Em campo, a equipe passou sem convencer até as quartas-de-final, quando reencontrou a França de Zidane e foi batida por 1 a 0.

Ainda sob efeito do fracasso, um mês depois Ricardo Teixeira – presidente da CBF desde 1989 – contratou Dunga para acabar com a bagunça, dando-lhe autonomia total para trabalhar no resgate do orgulho de vestir a amarelinha. A renovação do selecionado, no entanto, era uma exigência institucional.

Ao longo de quatro anos à frente da equipe, o técnico testou quase noventa jogadores. Mesmo criticado e com times diferentes, alcançou os títulos da Copa América e da Copa das Confederações. Formou, aos poucos, a base para o Mundial da África do Sul, disputa para a qual obteve classificação antecipada nas Eliminatórias.

Em 11 de maio de 2010, Dunga daria conhecimento público de sua lista final de convocados. Justificou nome por nome ao defender o comprometimento e a resposta dos atletas chamados quando mais precisou. O clamor popular por Neymar e Ganso, as mais recentes revelações do Santos, não foi atendido, já que ambos recém começavam a se afirmar e não haviam sido testados na seleção, segundo o comandante.

Convicto, Dunga seguiu no fim do mês com seu grupo para Curitiba, onde trabalhou intensamente a equipe por cinco dias. Na África, a delegação se instalaria em Joanesburgo, local da estreia do dia 15 de junho, contra a Coreia do Norte. A vitória por 2 a 1 trouxe tranquilidade ao time brasileiro, que também passou por Costa do Marfim e empatou com Portugal. Nas oitavas, 3 a 0 no Chile e boa atuação.

Já entre os oito melhores do mundo, o Brasil pegaria a Holanda em Port Elizabeth. Após um primeiro tempo de afirmação e vantagem mínima no placar, o time sucumbiria na segunda etapa, perturbado pelo primeiro gol da Laranja, que virou e mandou a equipe de Dunga de volta para casa.

“As coisas estavam correndo bem. Pelo nosso primeiro tempo, tínhamos esperança de passar. Na bola parada, que era um dos nossos fortes, aconteceu nossa desclassificação. Agora vamos descansar e, daqui uma ou duas semanas, quando o presidente retornar da África do Sul, vamos conversar”, declarou Dunga, de volta à Porto Alegre.

Poucas horas depois, em nota oficial em seu site, a CBF informaria o seguinte: “Encerrado o ciclo de trabalho que teve início em agosto de 2006, e que culminou com a eliminação do Brasil da Copa do Mundo da África do Sul, a CBF comunica que está dispensada a comissão técnica da seleção brasileira. A nova comissão técnica será anunciada até o final deste mês de julho”.

A dissonância entre o que disse Dunga e a atitude da entidade que comanda o futebol no país ficaria evidente dois dias mais tarde. Em entrevista ao canal Sportv, direto de Joanesburgo, Teixeira manifestou contrariedade com um processo que considerava fundamental e não viu realizado na íntegra.

“Recebi da FIFA um documento que mostra que o Brasil levou apenas um jogador abaixo de 23 anos. A Alemanha levou nove, a Argentina, três, Gana, onze e Espanha, seis. Depois da Copa de 90, eu trouxe o Falcão, que criou jogadores de futuro como o Cafu, mas foi sacrificado porque não teve resultados e não houve a paciência necessária. Agora isso vai mudar”, garantiu.

Questionado sobre a avaliação do trabalho do ex-capitão à frente do selecionado e se em algum momento pensara em alterar a comissão técnica, o dirigente utilizou uma metáfora para evidenciar o que pensava. “Em uma viagem de avião, quando você está sobre o Atlântico, você tem que ir até o fim. Não tem como retornar. E não pode tomar o manche do piloto”.

No mesmo domingo, Dunga divulgaria uma nota oficial direcionado a Teixeira. Em tom formal e evitando o conflito, Dunga agradeceria a oportunidade no mais alto cargo de técnico do país. “Como sempre foi a minha postura adotada, resta-me acatar a sua decisão pois, certa ou não, não cabe a mim questioná-la, na medida em que essa é a prática, de longa data, adotada no futebol. Espero e confio estar contribuindo para que Vossa Senhoria possa iniciar as suas novas estratégias  para disputar e, se possível, vencer a Copa do Mundo de 2014”. Definitivamente, Dunga dava adeus à Seleção Brasileira de Futebol.

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