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Um futebol criado para quem não tinha campinho

09/07/2010

Malwee vs. ACBF. Foto: Eliseu Demari/Jornal Contexto

Marcio Dolzan
mdolzan@uol.com.br

Se a história da invenção do avião é controversa – para nós foi Alberto Santos Dumont, para grande parte do mundo foram os irmãos Wright –, a história da invenção do futebol de salão vai pelo mesmo caminho. Há quem jure que os inventores desse esporte teria sido um grupo de frequentadores da Associação Cristã de Moços (ACM) de São Paulo que, na falta de campos de futebol, passaram a bater uma bolinha em quadras de basquete e hóquei, isso por volta de 1940. Já para FIFA, a invenção do esporte é um pouco mais antiga, tem outra nacionalidade e atende por um nome: Juan Carlos Ceriani, um professor de Educação Física argentino que dava aulas na ACM de Montevidéu.

Nessa teoria, mais aceita, Ceriani teria observado, ainda em 1932, que muitas crianças da capital uruguaia praticavam o futebol em quadras de basquete. No intuito de dar forma ao jogo, ele misturou regras de pólo aquático, basquete e handebol e criou o que denominaria indoor football – em bom português, “futebol de salão”.

Pois nesses mais de setenta anos de vida, esse esporte cresceu vertiginosamente. Tanto que, seguindo a Lei de Darwin, diferenciou-se e evoluiu. Surgiu o futsal, que, mais do que uma mera abreviação do termo futebol de salão, é um esporte um pouco diferente daquele imaginado pelos frequentadores da ACM – seja ela a de São Paulo ou a de Montevidéu.

O Brasil – e todas as associações do mundo filiadas à FIFA – adotou o futsal em detrimento ao futebol de salão original na década de 1990. A bola menor e mais dura, boa para se cobrar lateral com as mãos, mas imprópria para cabeceadas, deu lugar a uma bola maior e mais leve, perfeita para se praticar um futebol mais rápido e dinâmico. Desde então, o futsal caiu no gosto do brasileiro, em especial na região sul do país. Nesse esporte, o Rio Grande do Sul e, mais recentemente, Santa Catarina, são os estados que mais investem e que concentram as equipes mais fortes do Brasil.

Principais clubes

Atualmente profissionalizado, o futsal ainda vem sofrendo com a falta de continuidade em muitos clubes. A ascensão meteórica de algumas equipes só não é mais impressionante do que o sumiço delas. E a razão é quase sempre a mesma: investimento.

O Internacional de Porto Alegre montou algumas das equipes mais fortes do futsal brasileiro nas décadas de 1980 e 1990. Nove vezes campeão estadual e primeiro vencedor da Liga Futsal, disputada em 1996, o clube atualmente investe apenas de forma tímida nas categorias de base, e não há previsão de retorno para o departamento profissional.

As últimas grandes participações do Inter em campeonatos importantes de futsal aconteceram na metade final da década de 1990, quando o clube possuía parceria com a Ulbra, de Canoas. O investimento da universidade permitia a manutenção de alguns dos maiores jogadores do mundo na equipe, casos de Manoel Tobias e Ortiz. A partir de 1998, porém, a universidade decidiu partir para voos mais altos e abrir seu próprio clube, deixando o colorado órfão de patrocínio.

Mais tarde batizada de Sport Club Ulbra, a equipe de Canoas já nasceria fazendo história. Ainda em 1998, o time conquistaria sua primeira Liga Futsal, feito que repetiria em 2002 e 2003. O curioso é que duas dessas conquistas foram realizadas em cima da ACBF, de Carlos Barbosa, fato que faria surgir uma das maiores rivalidades do futsal brasileiro. Assim como o Internacional, porém, a Ulbra também já fechou seu departamento de futsal profissional por questões financeiras.

Dentre os principais clubes do estado, com certeza nenhum deles alcançou a projeção adquirida pela Associação Carlos Barbosa de Futsal, a ACBF. Ao conquistar a Copa Intercontinental de Clubes em 2004, disputada em Barcelona, o clube da serra gaúcha sagrou-se o primeiro campeão mundial reconhecido pela FIFA. Para se ter uma ideia, somente o espanhol Interviú, da capital Madri, viria a conquistar o torneio.

Além de campeã do mundo, a ACBF também é a maior vencedora da Liga Futsal, com quatro conquistas. O clube também ergueu duas vezes a Taça Brasil e dois troféus de campeão sul-americano, além de diversos outros títulos regionais e internacionais.

Na ausência de equipes mais fortes no estado, o maior rival da ACBF na atualidade é um clube catarinense. Amparada por um forte patrocínio, a Malwee/Jaraguá do Sul é a equipe que mais investe no Brasil, com orçamento próximo ao dos grandes clubes espanhóis.

Casa do craque Falcão, alardeado pela mídia como o principal jogador do mundo, a Malwee Jaraguá do Sul é um dos clubes mais vitoriosos da atual década. Conquistou três Ligas Nacionais, seis Taças Brasil e seis Sul-Americanos, dentre outras competições. O time de Santa Catarina também já chegou a quatro finais de Copas Intercontinentais – mas perdeu todas, para o Interviú.

Talvez seja a prova de que investimento é importante, mas que mesmo ele é incapaz de barrar o acaso. E, no fim das contas, foi o acaso, na década de 1930 ou 1940, que fez surgir o futsal.

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