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Craques de galalite

04/07/2010

Marcio Telles
tellesdasilveira@gmail.com

Não faz tanto tempo assim, a diversão da gurizada em dia de chuva não era correr para frente da tevê e ligar o videogame. Aquela coisinha eletrônica, fabricada no Japão, não se dava bem com multidões: era brinquedo de guri solitário. Dia de chuva, com a turma toda, era dia de desocupar a mesa da sala, abancar sobre ela a mesa verde-musgo – devidamente encerada – e desencaixotar aquelas peças de acrílico com 40mm de diâmetro. Dia de chuva era dia de jogar futebol de botão.

Não se sabe muito bem onde nem quando surgiu o futebol de mesa. Alguns dizem que foi na Inglaterra, em 1910 – ao menos, é a data de um folheto que exibe dois sérios e bigodudos ingleses ao redor de uma réplica de campo de futebol. A versão mais aceita, porém, é de que o brinquedo é brasileiro. O título de pioneiro cabe a Geraldo Cardoso Décourt que, por volta de 1929, deu ao jogo o nome de Celotex, material usado para a confecção das mesas, e publicou o primeiro livro de regras um ano depois. Conta-se por aí que Geraldo inventou o esporte em 1922, ao dispor botões de paletó sobre uma lousa com marcas de giz delimitando o campo de jogo. Em 2001, o governador paulista Geraldo Alckmin oficializou 14 de fevereiro – dia de nascimento de Décourt – como o “dia do botonista”, ao menos em São Paulo.

Dos anos 1930 aos 1980, várias versões de regras, mesas e botões espalharam-se pelo Brasil. Durante a década de 70, a tradicional fábrica de brinquedos Estrela lançou uma mesa de compensado verde e lisa, pequena, que recebeu o carinhoso apelido de “Estrelão” e até hoje é uma das favoritas dos praticantes deste esporte. Nas partidas oficiais, o tamanho da mesa impressiona: na regra brasileira, o compensado de madeira de lei mede 2,20m de comprimento por 1,60m de largura e 2cm de espessura; na regra gaúcha, a mesa é um pouco menor, medindo 1,60m por 1,20m. Ambas as regras permitem apenas um toque, o que privilegia a estratégia e resulta em partidas com escores baixos. Porém, diferem no tamanho dos botões, sendo os “brasileiros” maiores do que os “gaúchos”.

Para chegar aos modernos botões do século XXI, as peças também passaram por várias evoluções. Antes de 1950, havia os famosos “botões de osso ou de paletó”, que nada mais eram do que botões retirados de antigas camisas sociais. Depois vieram os “capas de relógios”, antigos vidros de relógios de pulso descartados nas relojoarias e cobiçados pelos garotos.

Por volta da Copa da Suíça (1954), surgiram os botões industrializados. Os primeiros modelos eram de plástico e rebaixados no meio, estampados com uma foto preta e branca do jogador – os famosos “canoinhas”.  As traves, de madeira, eram tão grossas que tornava a tarefa de marcar gol quase impossível.

Os botões “estrela chutadores” foram a próxima evolução dos modelos. Lançado pela fábrica Estrela, eram mais altos que os “canoinhas”, mas fabricados em plástico mais vagabundo. Foi a inspiração para a Gulliver, outra tradicional fábrica de brinquedos, lançar anos mais tarde os “panelinhas”, botões vendidos até hoje em supermercados e lojas de variedades.

Na década de 1980, se popularizaram os botões de acrílico com duas camadas. Nestes times, os quatro meio-campistas são ligeiramente menores do que os quatro zagueiros e pouco maiores do que os dois atacantes. Há ainda os botões “oficiais” – que não são oficiais em lugar algum – feitos de propileno,baixos, todos do mesmo tamanho e com um furo no meio.

Já há algumas décadas, os botões mais cobiçados são feitos de galalite, material usado para fazer botões de camisa, canetas, guarda-chuvas, ioiôs e até cachimbos. A galalite – nome comercial de caseína formaldeído – é uma matéria plástica obtida de substâncias orgânicas, sobretudo do leite, que lembra bastante o osso artificial e o marfim. Um único botão de galalite chega a custar 20 reais.

Para quem não quer investir tanto no seu time de futebol de mesa, há a opção de construir a equipe com botões de acrílico ou fiberglass, plástico reforçado com fibras de vidro. Destes materiais, os times custam em torno de 15 reais – mas, dependendo do acabamento, podem chegar a 80.

O fabrico dos times de futebol de botão é cuidadoso, muitas vezes feito manualmente. O artesão gaúcho Gérson Oliveira fabrica botões de galalite há mais de 20 anos e chega a levar até 30 dias para entregar um time completo. Hoje, vende apenas para particulares, com times de 10 botões mais goleiro podendo custar 200 reais. Seu produto é cobiçado por jogadores do Brasil inteiro e do exterior – conta, com orgulho, ter inclusive um cliente na Sérvia.

O praticante na Sérvia causa espanto por um motivo muito simples: o nosso “futebol de mesa” é praticamente desconhecido fora do Brasil. Tanto é que o jogo não possui nome em inglês. Na Europa Oriental, há uma variedade do futebol de mesa brasileiro, onde a maior diferença fica no gol: em vez da tradicional “caixinha de fósforo”, o goleiro é outro botão de linha. Há quem diga que o introdutor do futebol de mesa nas antigas repúblicas soviéticas tenha sido o pianista carioca Arthur Moreira Lima, ardoroso fã do esporte, que passou longa temporada de estudos em Moscou.

Em Porto Alegre, o ponto de encontro dos botonistas é o Bazar Mimo, que há 25 anos vende todo o equipamento para praticar o futebol de botão. Localizada no Centro de Porto Alegre, a loja de seu Domenico fica cheia aos sábados à tarde quando, no segundo andar da loja, os jogadores se encontram para partidas amistosas, bate-papo e eventuais campeonatos.

A turma que se reúne no Bazar Mimo aos sábados é variada na profissão, mas nem tanto na idade. Ainda que atuem como advogados, contadores, administradores e enfermeiros, os botonistas do Mimo possuem todos entre 25 e 60 anos.  Existem jogadores mais novos, mas eles são raridade nas praças de prática do esporte. Para Edu Caxias, o culpado pela lenta renovação tem nome: o videogame.

– Os jogos eletrônicos acabaram com os novos botonistas – confidencia Edu, cabisbaixo. Airton Romancini, 48, presidente da Liga Esteiense de Futebol de Mesa, concorda com o amigo mais jovem: “a tendência da gurizada é futebol no videogame”.

Ainda que a renovação seja lenta, assistindo às partidas disputadas no Bazar Mimo tem-se a impressão de que este jogo jamais vai desaparecer. Os praticantes, mesmo não sendo muitos, são muito fiéis. Um deles conta que já deixou a namorada porque ela ordenou que escolhesse entre o relacionamento e os botões de galalite. Escolheu os últimos.

Enquanto colocam seus times sobre a mesa para uma partida amistosa, dois jogadores na casa dos 50 anos conjecturam, entusiasmados como garotos, sobre o XIIIº Campeonato Gaúcho Individual, a ser disputado no final de outubro. Se depender da empolgação destes senhores, este brinquedo tipicamente nacional, que já foi reverenciado em filme (como em O ano em que meus pais saíram de férias) e tem no time de entusiastas nomes como Delfim Netto, Chico Anísio, Chico Buarque e Toquinho, jamais cairá no esquecimento.

Como dizem os botonistas: “Bote seu time na mesa!”

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  1. Marcelo M. Braga permalink
    13/12/2010 16:11

    Rio, 13 de dezembro de 2010
    Boa tarde Marcio Telles.

    Você teria o e-mail ou telefone ou site desse artesão gaúcho Gérson Oliveira para que eu possa encomendar um jogo de botões de galalite para o meu filho ?

    Obrigado,
    Marcelo Braga.
    Cel. (21)9813-0157 / Tel. (21)3509-6735

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