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Anildo Caloni, o Pistola de Ouro

03/07/2010

“Se eu for contar as histórias da bocha, desde 1954, vai levar uma semana”

Matheus Chaparini
matheuschaparini@yahoo.com.br

Eu já estava de saída quando o Argenta me chamou e apontou para o senhor que entrava pelo portão. “Aquele é o Anildo”. Vagabundeando na quadra da SOERAL na Redenção, havia ficado sabendo das histórias do Anildo. Muito simpático, convidou-me a sentar e antes que eu pegasse o gravador ele já estava me contando sobre a sua longa carreira. Seu Anildo é um baú cheio de boas histórias e depois de meia hora de conversa ficou claro que eram histórias demais para um só encontro. “Se eu for contar as histórias da bocha, desde 1954, vai levar uma semana”. Sugeri que nos encontrássemos novamente no dia seguinte. Pedi para ver as medalhas e as fotos daquela época e ele me convidou para ir à sua casa.

Às dez e meia da manhã de sexta-feira eu chegava ao seu portão. Meia hora depois do combinado e, dessa vez, acompanhado por um fotógrafo. Seu Anildo nos recebeu ao lado da filha que, sabendo da nossa visita, arrumou algumas medalhas e troféus na mesa da sala. Com tanto ou mais orgulho, ele nos mostrou o seu galinheiro e o pátio – muito bem cuidado, por sinal – onde cultiva bergamotas, limões e laranjas. “Isso aqui é minha terapia. De manhã eu só faço isso. Fico trabalhando aqui no pátio e de tarde vou pra bocha”.

A carreira

Anildo Caloni nasceu na cidade de Taquara em 1927. Começou a jogar bocha aos dez. Disputou campeonatos grandes de 1954 até 1983. Jogando bocha, rodou muito pelo Rio Grande, além de conhecer o vizinho Uruguai e a distante cidade de São Paulo, onde, aliás, sua fama de grande bochador chegou antes mesmo dele. Foi a São Paulo por ocasião de um torneio comemorativo dos cinquenta anos de um grande clube de futebol. Uma semana jogando e o escrete de Caxias, do qual Caloni fazia parte, recebia a medalha de campeão no estádio Palestra Itália, hoje em vias de extinção.

Quando Pistola começou a competir, ainda não existia um campeonato de nível nacional, o que só veio surgir anos após o auge de sua carreira, que ele data pelos idos de 1962 – quando recebeu o troféu de melhor do estado. A competição mais importante era mesmo o campeonato gaúcho, que ele venceu mais de quinze vezes. O escrete que representava o Rio Grande do Sul normalmente era formado por Anildo Caloni, Mario Balestrin e Amadeu Barin. Este último, muito elogiado por Caloni. “Um astro da bocha. Eu ganhei o prêmio de melhor bochador mas ele jogou mais bocha que eu”.

O vidro, a bocha, o tiro

O rapaz que me comentou a primeira vez sobre o Pistola, contara uma história que me deixou muito curioso. Dizia ele que, nos áureos tempos, o Pistola tinha tanta precisão no tiro – bochada por cima, sem quicar na cancha – que colava um copo de vidro a uma bocha, ia ao fundo da cancha e atirava. Depois, tirava a bocha sem causar nenhum dano ao copo. Caloni deu risada. Era real mesmo a história. Mas, aparentemente, não se tratava de um ato exibicionista. Parece algo trivial. Tanto que, certa vez, um homem veio parabenizá-lo por um tiro desses que ele dera em Livramento anos antes e ele sequer recordava.

Caxias

Pistola jogou quase toda sua carreira pelo Clube Independente, de Porto Alegre. Chegou a disputar campeonatos pelo Ypiranga, mas acabou voltando para o clube de origem. Chegou a receber um convite para jogar pelo time dos Inativos da Brigada Militar: receberia ordenado de terceiro sargento, trabalhando no seu oficio – pintura automotiva – com duas folgas semanais para treinar. Recusou. “Ah eu tinha amor pelo clube, pela turma que tinha no Independente. Tinha muita amizade lá”.

Até que um dia Pistola foi parar em Caxias por causa da bocha. Ele conta que o presidente de um clube já tinha feito um convite em 1954 e, desde então, vinha tentando levá-lo embora. Em 1963 Pistola foi à serra para um torneio. Não perdeu uma. “Pegava bocha pra todo lado”. Então o presidente foi taxativo.

– Pistola, está na hora de a gente falar de homem pra homem. O que tu quer para jogar bocha em Caxias?
– Olha, eu trabalho em oficina…
– Eu compro uma oficina pra ti!

E assim ele jogou por três anos na serra. Em tempos que ninguém ganhava nada com a bocha, era uma grande proposta. “Hoje em dia, para o cara jogar um pouquinho, tem que pagar. Eu nunca ganhei nada com a bocha. A gente viajava para jogar e pagava o hotel do próprio bolso”.

Esse caráter amador do esporte vem se perdendo com o tempo e Seu Anildo Caloni é um grande representante desse passado. Chegou a melhor bochador do estado, jogando simplesmente pelo prazer de jogar. “Eu não tinha nenhuma pretensão, jogava porque gostava”.

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