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Infraestrutura: pensando no legado

08/12/2011

Projeto da nova zona portuária de Porto Alegre: inspiração catalã (crédito: Jaime Lerner/Divulgação)

Por Arthur Nonnig
arthurnonnig@gmail.com

Os defensores da Copa do Mundo no Brasil mantêm o mesmo discurso: “A Copa trará legados para a população”. “A Copa servirá como catalisador para o desenvolvimento”. Enquanto elefantes brancos são levantados por todo o País, a justificativa continua válida graças às obras de infraestrutura espalhadas pelo Brasil. Em Porto Alegre, o panorama é o mesmo: o Beira-Rio passa por reformas, uma Arena é levantada na Zona Norte; a capital gaúcha prepara-se, estruturalmente, para sediar o maior evento esportivo do mundo.

 

 Cais Mauá                                                                                                                                                                      

No dia 25 de novembro deste ano, o Governador do Estado, Tarso Genro, transferiu a posse dos 180 mil metros quadrados da região portuária para a iniciativa privada. A empresa que assume a área é a Cais Mauá Brasil, responsável por toda a revitalização do local.Porto Alegre buscou em Barcelona a referência para a revitalização de uma zona abandonada da capital. O Cais Mauá, que hoje está jogado às moscas, sendo pouco aproveitado, será um ponto importante de lazer, comércio e cultura da cidade. O projeto pretende incorporar sua abandonada zona portuária à vida urbana, como aconteceu na capital catalã, em 1992.

Segundo a Câmara Temática da Infraestrutura Copa 2014/RS, os investimentos no local chegam a R$ 500.000.000. As obras, que levarão cerca de seis meses para começar, devem estar prontas no dia 16 junho de 2014, a tempo do aproveitamento na Copa.

As mudanças na região portuária incluem uma área verde emendada à Praça Brigadeiro Sampaio, passarelas por toda a extensão do Cais, transformação do muro em cortinas de água iluminadas, além do projeto básico de revitalização dos armazéns, que serão transformados em centros comerciais e de serviço. Na área, também está prevista a construção de três torres, que darão um ar moderno à antiga área portuária da capital sul-rio-grandense.

Grande parte do projeto vem da inspiração catalã. O Prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, comentou, ao Portal da Copa de 2014, o modelo seguido. “O porto é o melhor exemplo de como a colaboração entre as duas partes funciona, apesar das peculiaridades de cada uma. Existe uma identidade muito forte entre as cidades, e queremos aproveitar ao máximo a transformação de Barcelona desde 1992″, afirmou Fortunati.

O projeto do Cais Mauá destaca-se nas obras ligadas à Copa do Mundo não por ser de necessidade do povo, como viadutos, rodovias e aeroportos, mas por ser um atrativo a quem vem à capital do Estado. Neste caso porto-alegrense, fica claro que as obras de revitalização na região portuária não foram pensadas para a Copa 2014, mas estimuladas pelo evento de tamanho mundial.

 

O aeroporto

As obras no Salgado Filho começaram em maio deste ano (Foto: Arthur Nonnig)

A capital gaúcha já sofreu com problemas no Salgado Filho. Os equipamentos do aeroporto não são os mais avançados e, obviamente, não estão prontos para receber um evento de tamanha grandiosidade como uma Copa do Mundo.“Caos aéreo”, essa expressão circulou nos noticiários brasileiros neste e no ano passado. No Rio Grande do Sul, o maior aeroporto, que será amplamente utilizado na Copa do Mundo de 2014, é o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre.

As obras de ampliação da pista e a renovação dos equipamentos são uma necessidade da cidade e do Estado, que a Copa apenas trouxe com maior velocidade. O Coordenador de Obras da Gerência Temporária de Porto Alegre (GTPA) — entidade que cuida das obras na capital, incluindo as obras no aeroporto —, Alberto Bernd, reforçou a necessidade das melhorias no Salgado Filho, não apenas para a Copa 2014, mas para a cidade. “As obras do aeroporto não têm como objetivo somente a Copa. Elas foram feitas com base em um estudo de projeções. A ampliação do terminal de passageiros, por exemplo. O terminal foi inaugurado em 2001, em outro contexto, agora é muito mais fácil para qualquer um comprar uma passagem; o movimento aumentou muito, e chegou uma hora em que temos que ampliar”.

No caso do aeroporto, a melhoria dos aparelhos de controle é necessária, uma vez que o evento esportivo ocorre durante o inverno, tempo de maior propensão para neblinas e nevoeiros. O Coordenador também comentou sobre essa necessidade da capital. “São vários equipamentos, principalmente iluminação durante todo o eixo da pista, e nas cabeceiras também. Esses equipamentos já estão licitados e visam atender a demanda daqueles dias”, afirmou Bernd, referindo-se aos dias da Copa na capital.

Assim como o Cais Mauá, as obras no Aeroporto Internacional Salgado Filho ficarão para a cidade como legado. O que foi agilizado pela Copa permanecerá para a população, que continuará a usufruir das melhorias que o evento mundial trouxe. O próprio Coordenador confirma: “A Copa está alavancando muitas obras. Nesse sentido, ela está sendo muito boa, porque alavanca os recursos e mobiliza órgãos.”

Segundo a Câmara Temática da Infraestrutura Copa 2014/RS, atualmente o Aeroporto Internacional Salgado Filho tem 15% das obras concluídas. No total, os investidos chegarão a R$ 792.000.000 somente no aeroporto da capital. Para a Copa, também serão disponibilizados R$ 53.613.673 para obras nos aeroportos regionais, espalhados pelo Rio Grande do Sul.

 

Transporte

Bus Rapid Transit (BRT) de Porto Alegre. Foto: Ricardo Giusti/PMPA

Como toda cidade grande, Porto Alegre sofre com a falta de organização do seu trânsito. Para receber a Copa do Mundo, a cidade precisa suportar um fluxo superior ao exigido pelo dia a dia da cidade. Prevendo o aumento no número de pessoas e veículos na cidade, durante o período dos jogos, as medidas necessárias já começam a ganhar forma.

As obras relacionadas à Copa do Mundo mais avançadas são: parte da RS-118, segundo trecho da obra, e a revitalização da Rua Dona Alzira, nas proximidades do aeroporto. A maioria das obras no Estado ainda está em fase de licitação. Em Porto Alegre, especialmente, algumas ações chamam  atenção.

As obras na rodoviária facilitarão o acesso à cidade para aqueles que chegam do interior. Dentro da cidade, as ampliações da Avenida Tronco (avaliada em R$ 140 milhões), da Beira-Rio (R$ 94 milhões), da Terceira Perimetral (R$ 120 milhões) e da Voluntários da Pátria (R$ 30 milhões) já foram iniciadas, mas ainda seguem lentamente, com porcentagens inferiores a 30%. Como destaque, a Terceira Perimetral já tem 28% das obras concluídas, com todo o projeto básico finalizado.
Além da construção de viadutos e melhorias nas avenidas e ruas de grande porte, outro projeto para a capital é a linha de ônibus BRT (Bus Rapid Transit), que será implantado nas Avenidas Bento Gonçalves, Protásio e João Pessoa. O sistema seria colocado na Assis Brasil, mas, com a confirmação do metrô em Porto Alegre, a avenida do centro de Porto Alegre recebeu o privilégio de contar com o sistema de ônibus. A novidade conta com pavimentos de concreto, tickets internos e externos, além de plataformas de embarque e desembarque. A medida, que continuará após a Copa do Mundo, visa facilitar o transporte através do corredor de ônibus.

Além das obras citadas, ainda serão desenvolvidas outras, como a ampliação da capacidade elétrica da capital e a reforma de aeroportos regionais. O Estado e, principalmente, a capital trabalham para receber o maior evento esportivo do mundo, mas a passos lentos.

Neste momento, tratando da infraestrutura, o projeto é pensando no legado. A Copa vai passar, mas as melhorias ficarão para os gaúchos. O Secretário de Gestão de Porto Alegre, Urbano Schmitt, valoriza a questão do legado para a cidade.

“O que nós pensamos, especialmente, em legado. Legado social, com a melhoria da qualidade de vida das famílias atingidas; maior projeção nacional e internacional de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul, entendendo o fluxo de turistas e a cidade como um destino preferencial para receber os eventos; melhorias no trânsito e na infraestrutura urbana; melhoria na qualidade dos serviços prestados aos cidadãos e aos turistas; a criação de novos negócios para a cidade; incremento e diversificação da economia de Porto Alegre”, declarou o Secretário de Gestão de Porto Alegre, Urbano Schmitt.

Maior parte das obras de transporte continua só no papel

06/12/2011

Lentidão nas obras gera preocupação. Charge: Blog Novo Jornal.

Por Ariel Engster
ariel.engster@yahoo.com.br

O transporte é um dos principais pontos de preocupação das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014.Em Porto Alegrenão é diferente e teme-se a saturação dos sistemas viários atuais. Com isso, planejam-se obras reestruturantes em várias frentes. Se os projetos e promessas derem certo, até2014 aZona Norte da Capital, que representa 55% de toda a demanda por transporte coletivo da cidade, será atendida pelo metrô e a implantação de quase 27 km do sistema BRT (Bus Rapid Transit) deve agilizar as linhas de ônibus. Além disso, o aeromóvel fará a ligação entre o metrô e o Aeroporto Salgado Filho de forma rápida e gratuita e ciclovias consolidarão as bicicletas como meio de transporte dos porto-alegrenses.

Muitos carros e muita lentidão

A cada dia, 100 novos carros passam a circularem Porto Alegree se somam aos já 715 mil emplacados. Segundo dados do Plano Integrado de Transporte e Mobilidade Urbana (PITMurb), estudo realizado por EPTC, Metroplan e Trensurb, no período de2003 a2033 a frota da Capital deve aumentar 122%. Com os crescentes engarrafamentos, teme-se que Porto Alegre exiba o mesmo cenário de outras metrópoles, com engarrafamentos gigantescos e paralisação praticamente total nos horários de pico. As soluções apresentadas são a ampliação de avenidas e a viabilização da utilização de formas alternativas ao carro de passeio como forma de desafogar o trânsito.

A obra mais adiantada até agora é a duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira-Rio, do Gasômetro até o Viaduto Pinheiro Borba, com conclusão prevista ainda para este mês. A avenida é uma das vias de acesso ao estádio do Internacional, o Beira-Rio, sede porto-alegrense da Copa do Mundo. A outra via de acesso  é a Avenida Padre Cacique, que também receberá melhorias. Na mesma região, ainda estão previstas a construção de ponte sobre o Arroio Dilúvio (em processo licitatório e com previsão de início em janeiro de 2012), construção de corredor exclusivo de ônibus nas avenidas Borges de Medeiros, Padre Cacique, Pinheiro Borba e Chuí e construção de um viaduto ligando a Avenida Pinheiro Borba à Beira-Rio, sobre a Avenida Padre Cacique.

A poucos metros dali fica a Avenida Tronco, conectando a Zona Sul com as outras regiões de Porto Alegre. O projeto de duplicação da Tronco é um dos mais importantes para a Capital, porque não envolve só a malha viária. No local onde serão construídas rótulas, vivem 1,4 mil famílias pobres. Para que os trabalhos, que incluem tratamento paisagístico, avancem, é necessário decidir qual será o destino dessas famílias. só pelo transporte mas também por envolver o reassentamento de 1,4 mil famílias pobres que moram no local das obras e que ainda não têm um destino certo. A prefeitura já se reuniu com representantes da comunidade, mas nenhuma decisão foi tomada.

Para o bom andar dos automóveis, mais vias serão melhoradas. A Rua Voluntários da Pátria será duplicada e serão criadas passagens subterrâneas nos cruzamentos da Rua Anita Garibaldi com a Avenida Carlos Gomes (obra já com licitação aberta e que deve começar no início de 2012), da Avenida Ceará com a Farrapos e da Avenida Cristóvão Colombo com a Dom Pedro II. Viadutos serão construídos na rua Salvador França e na Avenida Augusto Meyer. Outro viaduto, entre a Júlio de Castilhos e a Castelo Branco, juntamente com uma estação de ônibus com acesso subterrâneo, servirá para facilitar o fluxo de veículos na região da Rodoviária.

Incentivo às bicicletas e ao transporte público

Porto Alegre pretende implantar o sistema de BRTs nas avenidas Assis Brasil, Bento Gonçalves e Protásio Alves. A principal obra de transporte público, no entanto, será a construção do metrô. A Linha 2 fará um trajeto de 15 km, saindo da Esquina Democrática e indo até a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), na Avenida Assis Brasil. As obras devem iniciar no segundo semestre do ano que vem, mas as primeiras viagens só são esperadas para 2017. O valor da construção chegará a mais de R$1,5 bilhão, verba incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal. Quando do anúncio da inclusão do metrô no PAC2, a presidente Dilma declarou ser “imprescindível que as grandes cidades brasileiras sejam atendidas por metrô”.

As bicicletas também receberão atenção. A quase inexistência de ciclovias na Capital virou tema de debate desde o dia 25 de fevereiro deste ano, quando integrantes do Movimento Massa Crítica, que promove o uso de bicicletas no dia-a-dia, foram atropelados por Ricardo José Neif enquanto faziam um passeio pela Cidade Baixa. Várias das obras projetadas para a Copa contemplam vias específicas para as bicicletas. Até 2014, o Plano Diretor Cicloviário pretende implantar40 kmde ciclovias. Os projetos de melhorias das avenidas Beira-Rio e Tronco e da Rua Voluntários da Pátria incluem faixas exclusivas para bicicletas.

No dia 22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro, o prefeito José Fortunati participou de um passeio ciclístico que marcou a assinatura do contrato da construção da ciclovia na Avenida Ipiranga. O percurso será da Avenida Beira-Rio até a Antônio de Carvalho, totalizando 9,4 km. A obra será responsabilidade do Grupo Zaffari e do Praia de Belas Shopping, como contrapartida a empreendimentos das empresas.

Outra construção que se vale do sistema de contrapartida é a ampliação da Avenida Severo Dullius. A Rede Walmart é a responsável pela primeira etapa do projeto, que já está em andamento e deve ser entregue em outubro de 2013. A ampliação facilitará o acesso à Avenida Sertório e ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, que também receberá melhorias.

Ampliação do Salgado Filho

Um aeromóvel fará a ligação da Estação Aeroporto do Trensurb até o Salgado Filho. O trajeto, de quase 1 km, será percorrido em 90 segundos. O aeromóvel, que é tecnologia nacional, levará de 150 a 300 passageiros sem emitir poluentes, pois utiliza um sistema de propulsão a ar movido por ventiladores elétricos.

As mudanças não se restrinjirão ao aeromóvel. O terminal de passageiros será ampliado e reformado, obras que devem estar concluídas até o final de 2013. Segundo Alberto Bernd, coordenador de obras da Gerência Temporária de Porto Alegre (GTPA), a ampliação será feita já planejando uma futura demanda ainda maior. As melhorias incluirão, ainda, a instalação de aparelhos anti-neblina e o aumento da pista de 2 280 m para 3 100 m. Para que as obras do Salgado Filho pudessem ser realizadas, a Vila Dique teve de ser desocupada, processo que contou com a participação da Infraero. Bernd afirma que as melhorias não foram pensadas especificamente para a Copa. “Eram coisas que já estavam previstas. A Copa está alavancando muitas obras. Nesse sentido ela está sendo muito boa, porque alavanca os recursos e mobiliza órgãos”.

A perda da Copa das Confederações, Porto Alegre deu mais tempo para a conclusão dos projetos. A maioria das obras de melhoria dos transportes, entretanto, ainda não está sendo executada. Muitas ainda estão na fase de aviso de concorrência pública. Além dos moradores da região metropolitana, a malha viária terá de comportar de 400 a 500 mil turistas, projeção feita pelo governo do Rio Grande do Sul.

Tranquilidade no Turismo

05/12/2011

Secretário Luiz Fernando Moraes. foto: Divulgação

Por Bruna Konrath
brunakonrath@gmail.com

Em entrevista ao Esporte Fabico, o secretário de Turismo de Porto Alegre, Luiz Fernando Moraes, conta como a cidade está se preparando para receber os turistas na Copa de 2014. Para ele, tão importante quanto receber as pessoas no período da competição, é divulgar a Capital como cidade turística. Ele também fala sobre os projetos que estão em andamento.

 

Aproximadamente quantos turistas Porto Alegre está se preparando para receber na Copa de 2014?
Esse número nós ainda não temos como medir na medida em que não sabemos ainda quais são as seleções que virão para Porto Alegre, pois isso fará toda a diferença. Uma coisa é a Argentina ficar aqui, outra é a Croácia. De qualquer forma, nós temos a expectativa que venha um público grande do Mercosul e é para isso que estamos nos preparando. Porto Alegre recebe em torno de 1,5 milhão de turistas por ano. Já tivemos alguns testes, como o Fórum Social Mundial, e teremos alguns eventos que ainda vão acontecer, como o Campeonato Mundial de Atletismo Master, que será em 2013, e que servirão de ensaio para recebermos os turistas. Nós estamos muito focados não só nesse público que virá durante estes 30, 40 dias, mas naquilo que o evento poderá nos dar de promoção da marca Porto Alegre. Essa divulgação que a cidade terá será tão importante quanto a presença das pessoas porque será mais duradoura, plantará a nossa marca por mais tempo e isso nos dará um recall maior.

 

Como a rede hoteleira da Capital tem se preparado  para receber esses turistas?

Nós temos hoje cerca de quatorze mil leitos na cidade, e temos planejados por obras em andamento cerca de seis mil leitos, que significa uma capacidade bem maior. Vamos saltar de quatorze para vinte mil leitos, que é um aumento extraordinário para esse pequeno período. Isso não será apenas para a Copa, pois nós já temos problemas hoje. Porto Alegre já tem ficado com a capacidade esgotada frequentemente. Basta ter um evento maior na cidade para a rede hoteleira atingir sua capacidade plena. Então, nós temos um crescimento, vários hotéis em construção, hotéis antigos em reforma e projetos de novos hotéis que ainda devem surgir. Essa é uma área com a qual nós não temos nos preocupado, pois além desse crescimento, nós temos todo o entorno de Porto Alegre, até 100km, 120km, que inclui parte da serra, o que triplica a capacidade da cidade. Então, essa é uma área em que estamos relativamente tranquilos.

 

E quais são as áreas de preocupação? Quais são os maiores desafios?

Nós estamos falando a mesma coisa, já é consenso que três coisas são essenciais, sendo duas mais críticas para todas as cidades. Primeiro é ter um estádio, terminar o estádio, seguido do aeroporto. Os aeroportos são um problema no Brasil inteiro, e nós precisamos terminar. Nós temos aqui o Aeroporto Salgado Filho, que é uma obra federal, e o que temos notícia é que podemos nos tranquilizar porque, se tudo der certo, nós teremos uma pista duplicada e um novo terminal de passageiros e de carga. Então, as coisas aparentemente estão andando bem.

 

Que outras obras tem sido feitas com finalidade turística na cidade?

Naturalmente, a restauração do Cais Mauá é definitiva para isso, não só para a Copa, mas para a cidade. O novo Cais Mauá vai mudar a vida da cidade, pois nós iremos ter uma relação diferente com o Centro, passando a frequentá-lo de uma maneira diferente de dia, à noite e nos finais de semana, o que não fazemos hoje. Hoje nós vamos ao centro para comprar e trabalhar, mas vamos pouco para nos divertirmos. O novo Cais Mauá permitirá isso e vai estabelecer essa nova relação como já está começando a estabelecer. Os imóveis ao redor já estão se valorizando e já temos notícias de hotéis se instalando perto do Cais.

Outra obra importante, da qual o prefeito está cuidando pessoalmente, é a revitalização da orla, desde a área central da cidade, na Usina do Gasômetro, até o bairro Tristeza. O prefeito cuida disso pessoalmente, um escritório de arquitetura será contratado especialmente para fazer o projeto integrado de tudo e já há um recurso reservado para isso. Então, nós provavelmente teremos Porto Alegre fazendo as pazes com o Guaíba.

Além disso, desencantou o transporte hidroviário do catamarã, que era uma demanda represada. A tendência com esse sucesso é que ele se amplie. Hoje temos só um catamarã que faz a rota, mas podemos sonhar que mais catamarãs façam essa rota e outras rotas que liguem, por exemplo, a zona sul ao Centro. Quem sabe uma rota que ligue o Lami, Ipanema e o Centro. Com esse conjunto, nós voltamos a nos integrar com o Guaíba. Aliás, outro projeto importante que não tem nada a ver com o Turismo, mas tem tudo a ver com o Turismo, é o Projeto Integrado Socioambiental, o PISA, que vai elevar de 27 para 87% o tratamento de esgoto da cidade. Isso praticamente vai devolver a balneabilidade para o rio, e é um dos fatores que fará o resgate do Guaíba. Nós podemos fazer muitas coisas, mas ter o rio poluído não resolve nada. Então, é um conjunto de coisas articuladas que farão com que tenhamos uma nova realidade.

Temos ainda alguns projetos de sinalização, como a sinalização para pedestres no Centro Histórico e na rodoviária e a colocação de pórticos em quatro entradas da cidade. Também faremos um estudo técnico de viabilidade para implantar um bonde turístico no Centro. Há o projeto da casa Mercosul do Turista, que é uma reforma no prédio da Secretaria Municipal de Turismo que terá uma pequena área de eventos, e uma grande área de acolhimento do turista, onde haverá um conjunto de serviços à disposição, que vão desde revistaria com jornais de todo o mundo a posto de polícia.

 

Houve alguma restrição ou exigência da FIFA que afetou diretamente a área turística?

A FIFA é bastante exigente com certas coisas, eles têm mais restrições e mais cuidado com a área de marketing, com a preservação da marca dos seus patrocinadores, mas com a área do Turismo não houve atrito.

Crescendo com o voluntariado na Copa

02/12/2011

Voluntários em teste de segurança dias antes do início da Copa de 2010, na África do Sul.

Por Sarita Reed
sarireed@hotmail.com

 

Assistir aos bastidores de um evento do porte da Copa do Mundo, participar de treinos e ensaios restritos ao público e entrar em contato com diversas culturas são alguns dos motivos que fazem com que milhares de pessoas desejem trabalhar voluntariamente no mundial de futebol. As inscrições para o programa oficial de voluntariado da FIFA para a Copa do Brasil ainda não estão abertas, mas a previsão é que o processo de seleção inicie no começo de 2012. No mundial da África do Sul, em 2010, setenta mil pessoas de todas as partes do mundo se candidataram ao trabalho voluntário para 18 mil vagas disponíveis. Para a Copa do Brasil, a estimativa é que a procura seja ainda maior.

 

Projetos de capacitação

    À parte da FIFA, por todo país surgem iniciativas, muitas vezes voluntárias, que visam capacitar a população para o trabalho voluntário durante a Copa. São o caso de projetos feitos por ONG’s, universidades ou governos que oferecem desde cursos de línguas até noções de como lidar com o público.     Essa qualificação profissional de milhares de brasileiros que o mundial indiscutivelmente impulsiona, por si só, já faz com que sediar o maior evento esportivo do mundo valha a pena para o Brasil. Abaixo, algumas das ações:

 

  • O projeto “Um gol de educação na Copa”, do Distrito Federal, propicia um curso de capacitação a estudantes que querem trabalhar no mundial de 2014. Além do ensino de línguas estrangeiras, aulas de história, geografia, cultura brasileira e noções de futebol são dadas em período extra-classe por professores voluntários. Segundo Ana Cristina Chaves, coordenadora do projeto, a expectativa é que os jovens trabalhem também nas olimpíadas de 2016 – caso haja competições de algum esporte na capital do país. “Eles vão trabalhar em aeroportos, concentrações, jogos, monumentos da cidade, shoppings… Em qualquer lugar que necessite um falante de língua estrangeira com esse perfil, nós estaremos lá”, conta Chaves.
  • Em Novo-Hamburgo, no RS, a universidade Feevale tem como objetivo preparar acadêmicos e a comunidade em geral para a recepção de visitantes na região através do projeto “Feevale na Copa”. A ideia é capacitar os interessados em participar do mundial, como voluntários ou com vínculo empregatício, nas áreas de hotelaria, turismo, gastronomia, lazer e segurança.

  • Jovens que cumprem medidas socioeducativas na Amazônia terão a oportunidade de participar do projeto “Voluntários da Copa”, como forma de reintegração social. A iniciativa do Governo do Estado prevê a participação dos jovens no atendimento ao público, em locais como áreas de embarque e desembarque de visitantes e ao redor da Arena da Amazônia.

Lílian Oliveira no estádio Ellis Park, em Johannesburg.

A paulista Lílian Oliveira, de 27 anos, foi voluntária internacional na área de logística na Copa da África do Sul, em 2010. Formada em arquitetura e urbanismo, a moça teve a oportunidade de aprofundar seus estudos sobre arquitetura esportiva durante o evento e então relatar suas experiências e possíveis soluções para os problemas do mundial nos seus blogs Gol da Arquitetura e Arquibancada. Ela conta, em entrevista abaixo, como se deu todo o processo do voluntariado:

 

O que motivou você a ser voluntária na Copa do Mundo da África do Sul?

Já havia sido voluntária nos Jogos Pan Americanos do Rio, em 2007. Gostei da experiência por ter acesso aos bastidores e a um evento bem diferente do que vemos pela televisão. Por já ter a experiência seria um ponto positivo no processo de seleção para a Copa do Mundo, que é um evento mais importante e que me interessa muito. De qualquer forma, mesmo tendo acessos a bastidores que nem a televisão consegue, saliento que o evento é bem diferente, e as vezes parcial, pois você acaba se entretendo com mais coisas e perdendo parte da evolução dos jogos e tendo menos acesso a alguns dados que a televisão nos deixa a par.

Como funcionou o seu processo de seleção?

Cerca de um ano e meio antes do evento, a FIFA abre em seu site oficial um formulário extenso para se candidatar. Após uma triagem de perfis, eles começam a fase de entrevistas, cerca de 6 meses antes do evento começar. As entrevistas são em inglês, no consulado do país sede, e servem para conhecer os potenciais candidatos pessoalmente. Cerca de 1-2 meses antes do evento, eles confirmam que você é de fato um voluntário da Copa do Mundo. Na primeira triagem eles selecionam os candidatos por terem experiências profissionais e em voluntariado (em eventos esportivos ou não). Na segunda, eles avaliam a personalidade, caráter e vontade de acrescentar, além de fluência em idiomas.

Como foi a sua experiência na África do Sul? O que acrescentou na sua formação pessoal e profissional?

Minha experiência na África do Sul foi bem positiva em muitos sentidos. Cultural por aprender bastante sobre o dia a dia e mudar possíveis estereótipos que nos fazem formar em nossas cabeças. Fiquei quase dois meses na África do Sul, então tive a oportunidade de ver um pouco além das datas do evento, que durou um mês, observando o período em que os sul-africanos retomavam suas vidas ao normal. Sou arquiteta e urbanista e nessa área o evento me ajudou a compreender muito a forma como o evento modifica de fato uma cidade e uma nação, e o que parece mudar, mas que não é eficiente, tanto em forma de projetos urbanos, como também em projetos sociais. Escrevo sobre a arquitetura esportiva, em especial sobre estádios de futebol e projetos para Copas do Mundo e Jogos Olímpicos e a experiência me fez aprender muito em como utilizar de artifícios da área para beneficiar o país em muito mais âmbitos do que somente o da arquitetura e urbanismo, mas também educação, turismo, cultura e saúde.

Preparação para o ensaio fotográfico oficial da FIFA, no Soccer City.

Como era a sua rotina de voluntária na Copa de 2010?

Por falta de um comitê local organizado, muito do meu papel foi defasado e desperdiçado. Eu teria que trabalhar no setor de logística. Conforme me candidatei, a vaga de logística era responsável pela coordenação da entrada de tudo que entrava ou saía do estádio, trabalhando dentro do estádio, na garagem. No entanto, chegando lá, o trabalho era completamente diferente e exigia um conhecimento urbano de Johannesburg que eu, nem o outro voluntário mexicano tínhamos – tínhamos que dar direções e orientações a caminhões e carros em um estacionamento afastado do estádio. Como estávamos completamente locados no setor errado, acabamos trabalhando em horários de jogos auxiliando torcedores, mas não oficialmente, por espontaneidade mesmo. No dia a dia, frequentávamos o estádio em todas as preparações para abertura e encerramento, ensaios de iluminação, treinamentos de segurança, ensaios fotográficos do troféu e da bola da partida final, reconhecimento de campo feito pelas seleções. Mas sobra muito tempo, então os voluntários se organizavam para conhecer a cidade, para assistir a outros jogos em outros estádios. Não é muito trabalho, pois tem muitos voluntários, mas as atuações são basicamente em horários de jogos (exceto que fica nos hotéis, aeroportos e no setor de voluntários e credenciamento).

Na sua opinião, quais os requisitos fundamentais pra quem quer ser voluntário em uma Copa do Mundo?

Prestatividade, pró-atividade, saber trabalhar em grupo, fluência em idiomas (principalmente o inglês), experiência em eventos esportivos e como voluntário contam como seleção. Para o trabalho em si, conta mais a vontade em colaborar e vai contra a seleção a vontade única de ter somente benefícios.

Pretende ser voluntária em 2014? Quais as suas sugestões para melhorar o sistema de voluntariado da Copa do Mundo?

Pretendo ser contratada oficial da Copa 2014, já que tenho me preparado bastante para conseguir trabalhar oficialmente. O sistema da Copa do Mundo é bem restrito e de difícil ingresso. Só mérito não te coloca lá dentro, é preciso muito reconhecimento e, principalmente, contatos, infelizmente. No entanto, caso não consiga, pretendo me candidatar, pois já tenho a vantagem agora de uma Copa do Mundo no currículo, o que me coloca facilmente dentro da seleção.

Sugeriria que o sistema de voluntariado tivesse cargas horárias variadas e que liberassem alguns voluntários para assistir jogos quando não estiveremem trabalho. Pouquíssimosjogos realmente lotavam, mas mesmo assim a África do Sul não permitia que os voluntários assistissem às partidas. Muitos dos voluntários em trabalho perdiam mais tempo com outros voluntários que com suas funções propriamente ditas. De qualquer forma, nenhum voluntário se recusa a ajudar torcedores, é um ponto positivo para o evento deixá-los lá. Todo voluntário quer assistir jogos, ninguém vai somente para ficar fechado sem ter acesso a nada e ainda arcando com seus gastos. Esses são os benefícios em troca que eles devem receber. Não adianta barrar esses voluntários pois eles conhecem o funcionamento do evento e sabem suas falhas. Na África do Sul, mesmo não sendo permitido, a maioria dos voluntários de Johannesburg assistiu à maioria dos jogos, burlando o sistema de segurança facilmente.

Lílian no Soccer City, também em Johannesburg.

E o que pode melhorar de forma geral na organização?

Comparando com a África do Sul, sugiro que as cidades sedes conversem entre si. Principalmente sobre as regras para os funcionários, alimentação e voluntários, assim como pagamentos. Que os contratos sejam assinados adequadamente e por todos. Nada disso funcionou na Copa de 2010.

Sobre a segurança, espero que o Brasil tenha planos rígidos e planos alternativos, evitando mudá-los. Na África do Sul, a regra de segurança, portas de acesso mudavam diariamente, deixando até mesmo os funcionários despreparados e discordando entre si. Cada dia era uma regra diferente. Seria boa uma fiscalização mais presente nos arredores dos estádios pois os roubos de câmeras e eletrônicos foi muito frequente.

Seria muito bom se fosse testado de alguma forma o sistema de cartões de crédito/débito antes dos eventos,em massa. NaÁfrica do Sul, o sistema falhava muito, as filas ficavam gigantes e as funcionárias tinham que sair das ‘barracas’ para tentar captar o sinal levantando as máquinas no ar. Foi de um amadorismo sem tamanho.

Também analisaria, dentro do possível o histórico dos funcionários. Na África do Sul, jornalistas sem credenciais e até mesmo torcedores sem ingressos entravam no estádio pagando seguranças. Estes, que ganhavam pouco, viam ali a oportunidade de tirar um dinheiro extra. Além disso, nas lojas oficiais da Copa, soube de funcionários que deram produtos para torcedores, sem cobrá-los.

Fale sobre a idéia dos seus blogs que tem como tema a Copa do Mundo.

Através da observação de meus artigos no meu blog pessoal Gol da Arquitetura por parte da redação do Portal da Copa 2014, fui convidada para escrever em um espaço meu, o blog Arquibancada, independente de direção ou censura do Portal da Copa em espaço destinado às soluções arquitetônicas, urbanísticas, tecnológicas e reflexos das mesmas para a Copa do Mundo, direcionando o público a se preparar e observar os potenciais e problemas da Copa do Mundo no Brasil, além de servir como atualização de informações.

O interesse em arquitetura esportiva surgiu a partir do meu trabalho final de graduação da faculdade (Mackenzie), para o qual desenvolvi um estádio para o Corinthians – no mesmo terreno onde ele está sendo construído hoje. Por ver a falta de conhecimento de alguns profissionais e de professores nessa área específica, e por ter tido dificuldades em analisar de fato os estádios, montei o blog para ajudar pessoas que possam ter interesse no assunto, além de ser um prazer escrever sobre o que eu gosto, aumentar meu conhecimento e botar em pauta a discussão, ampliando o efeito que eu queria. Com o tempo e com o estudo, as análises englobaram os grandes eventos e análises de tecnologias e técnicas que podem ser úteis em estádios e posturas do governo brasileiro com a candidatura do país para 2014 e 2016.

 

No início de 2012, as inscrições para o programa oficial de voluntariado esportivo da FIFA estarão disponíveis no site:

http://www.fifa.com/worldcup/organisation/volunteers/index.html

 

 

 

Capoeira que é bom não cai

09/08/2011

Crédito: Alexandre Miorim

Por Alexandre Miorim
alexandremiorim@gmail.com

Luta, dança, jogo, brincadeira ou ritual… Sua dúvida? Pois era a do capitão-do-mato, confuso ao ver os escravos em roda, tocando berimbaus e tambores, enquanto desenvolviam uma das principais manifestações artísticas já surgidas no Brasil. Mas que luta é essa, em que só se desvia? A Capoeira, que nasceu lá na Bahia e agradece ao pé da cruz, pela roda de todo dia. Aquela que foi criada pelo negro roubado da África, para trabalhar forçado no Brasil Colônia, trazendo de lá valores e sentimentos invioláveis, que fez questão de preservar mesmo na pior condição à qual o ser humano pode ser submetido.

Escondidos da custódia, os escravos se reuniam em baixo das vegetações rasteiras, ou mesmo na senzala de madrugada, e se desprendiam daquela realidade subumana. Exaltavam suas origens, com muita música e expressão corporal. Por alguns momentos, esqueciam-se da angústia, da opressão. Era a manifestação artística na sua maior proporção e intensidade, movida pela ânsia de ser livre.

Olha o nêgo, sinhá… Os brancos não sabiam dizer o que era aquilo. Ora parecia que brincavam, ora parecia que se preparavam para a guerra. Confusos, resumiam que os negros estavam ‘vadiando’. Preocupados, no entanto, proibiram. Castigaram, é claro. Negro que era pego jogando Capoeira ia pro tronco, pra cadeia… Podia até ser mutilado para não repetir. Não adiantou.

Apesar da repressão, a cultura resistiu. Da Bahia a arte se expandiu e se estabeleceu com força em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Hoje a Capoeira é praticada e respeitada no mundo inteiro. A legislação, que a tinha como ilícita até o início do século passado, agora a reconhece como Patrimônio Cultural Brasileiro.

Meia volta daqui, meia volta de lá. Giro seguido de chute, esquiva emendando uma rasteira. O outro pula, vira um ‘aú’ e ressurge do outro lado, já aplicando um novo movimento. Afinal, acerta ou não acerta? Ah, entra na roda pra saber…

Arte marcial 

Para seus interesses patronais, o receio dos senhores de engenho não foi equivocado. ‘Vadeando’ daquele jeito, o escravo aprendeu a se defender melhor dos ataques covardes que sofria a chicotes, espadas e armas de fogo. Ficou difícil recapturar o negro fugitivo no meio da mata. Agilidade e astúcia anulavam as vantagens do agressor, geralmente a cavalo e armado.

Mas há quem diga que, para ser considerada arte marcial, deveria ter sido utilizada em combate internacional, como o Karate, no Japão, e o Taekwondo, na Coréia. Nessa mesma relação está a Capoeira, no Brasil. E a História comprova. Muitos quilombos, como o de Palmares, sobreviveram durante décadas aos constantes ataques armados da Coroa Portuguesa. A resistência foi feita à base da Capoeira. Na Guerra do Paraguai, mais tarde, capoeiristas foram recrutados – muitos à força – para brigar nos pelotões de frente das forças brasileiras. ‘Casca-grossa’, não?!

“Com a África na mente eu vou jogar”

Pra quem tem, sobretudo, a capoeira como filosofia de vida, ‘vadear’ tem hora e local marcados. Assim é para a “Áfricanamente Escola de Capoeira Angola”, de Porto Alegre, e pra outros grupos também da capital, de Canoas, Tramandaí, de todo o Brasil…

Um vasto repertório de rasteiras, chutes baixos, altos, voadores, esquivas impressionantes, paradas-de-mão, giros indescritíveis… “Quero ver mais ‘macacos’ e ‘peões-de-cabeça’”, comenta o Mestre Guto, numa das pausas da roda, exigindo um pouco mais de ousadia da moçada (que já estava tinindo!).

Quando o golpe acerta, um sorriso ou uma brincadeira já eliminam qualquer tensão antes mesmo de ser gerada, e só por parte de quem está de fora. Ali dentro todos sabem que o respeito ao próximo é ordem da casa.  “Pior coisa é machucar o companheiro. Quando tu te machuca é tranqüilo… tu segura a onda sozinho e te recupera. Brabo é ver o irmão ali mal, tendo que se recuperar por aquilo que tu fez”, leciona o Mestre Guto, sobre o jogo e sobre a vida.

Num coleguismo fraternal, a roda durou mais de três horas e terminou com um papo pra lá de cabeça. Humildade, amizade, amor, paz, união… Atitudes e lições que foram cultivadas pelos escravos, mesmo naquele triste período da história brasileira, e que hoje muitas vezes ignoramos.

Racismo no futebol gaúcho

02/08/2011

Por Pedro Heberle
pedro_heberle@hotmail.com

O episódio Zé Roberto evidencia uma desagradável realidade: manifestações preconceituosas são mais comuns do que se pensa no Rio Grande do Sul. Foto: Wander Roberto/VIPCOMM

A história, pelo menos em parte, é conhecida: O Grêmio foi fundado em 1903 e não aceitava jogadores e associados negros, entre outras minorias. O Sport Club Internacional surgiu em 1909 para acolher essas minorias e passou a ser conhecido como o Clube do Povo, atraindo camadas sociais inferiores e hostilidade por parte dos gremistas. O perfil se manteve e até hoje há indícios de manifestações racistas na torcida do Grêmio, embora em sua minoria. Isso seria uma espécie de “versão oficial” da história do preconceito no futebol do RS. A realidade, claro, é muito mais complexa que um parágrafo.

Pois quando o atacante Zé Roberto foi chamado por Falcão para aquecer à beira do gramado do estádio Olímpico, na finalíssima do Gauchão deste ano, se repetiu o episódio de preconceito que tanto a sociedade tenta coibir: os torcedores gremistas imitaram macacos assim que o atacante colorado começou a se movimentar.

Antes de investigar a que faz referência a torcida quando dessas manifestações, façamos uma pequena retrospectiva: recentemente, no futebol gaúcho, tivemos casos de ofensa racial em 2005, quando o colorado Tinga foi chamado de macaco pela torcida do juventude; em 2006, no caso do zagueiro Antônio Carlos, então no Juventude, contra o gremista Jeovânio e em 2009, quando o argentino Maxi Lópes teria chamado o jogador Elicarlos, do Cruzeiro, de macaco. Episódios de racismo no futebol internacional são inúmeros, e têm como vítimas Eto’o, Neymar, Roberto Carlos.

A maioria desses casos envolve a figura do macaco. Há inúmeras versões sobre a gênese do termo macaco como metáfora. A mais corrente entre os torcedores do Grêmio é que macaco faz alusão a “aquele que imita”, pois a torcida do Internacional teria imitado a gremista em cantos, bandeiras, etc. Há, inclusive, outras bem menos fundamentadas: uma conta que durante uma reforma nas arquibancadas do Beira-Rio, os torcedores colorados se penduravam em árvores ao redor do estádio para ver os jogos, o que justificaria o apelido. Não há árvores ao redor do Beira-Rio. Pelo menos, não altas o suficiente para tal fim.

A conotação negativa é antiga. Há muito que a alcunha macaco vem se distanciando do sentido de animalzinho perspicaz capaz de reproduzir gestos humanos. Em lingüística, costuma-se dizer que o uso consagra o termo. Pois macaco parece estar mais vinculado a uma representação pejorativa do negro do que a “alguém que imita”. A primeira conotação é mais forte pois o termo está impregnado no nosso léxico coloquial como um resquício do nosso passado escravagista.

Acontece que o macaco foi abraçado também no Internacional, como forma de reação ao preconceito vindo de fora e de dentro do clube – em um episódio, por exemplo, o árbitro Paulo César de Oliveira foi xingado no Beira-Rio por termos racistas, entre eles macaco. De qualquer forma, algumas partes da torcida passaram a adotar o animal como reação à sua utilização pela torcida adversária.

Há pelo menos três exemplos: um torcedor que se veste como um gorila, uma faixa onde se lê “bem-vindos ao planeta dos macacos” e uma torcida que se intitula macaco (massa cachaceira colorada). E, mais recentemente, a diretoria do Internacional adotou o macaco como mascote, ao lado do Saci (cujo cachimbo, em meio a essa onda politicamente correta, poderia remeter ao crack), e o chamou de “Escurinho”, referência ao ídolo negro dos anos 1970 que passava por dificuldades financeiras e problemas de saúde. O dinheiro acumulado com o mascote foi revertido para Escurinho, mas, a despeito do gesto benevolente, ficou a impressão de que a direção colorada quis esconder a sujeira embaixo do tapete.

Dormindo com o inimigo

27/07/2011

Por Matheus Pairé
paireh@hotmail.com

Foto: Jéferson Bernardes

Graças ao meu desleixo em não ser sócio de nenhum CLUB (graças ao amadorismo familiar em tempos ainda imberbes e bancarrota financeira nesses dias acadêmicos), nem mesmo do SPORT CLUB, entidade porto-alegrense que costumo acompanhar as atividades desde épocas imemoriais com Goicochea à meta e Ricardo a cotovelar narizes tricolores na volância, dando início a arranca-rabos colossais e formadores de caráter, tive a oportunidade de assistir ao embate da quarta-feira de 6 de junho de 2011 entre Inter e Atlético (o Paranaense) sentado à mesa de plástico de um bar. Até aí nada de mais, sendo essa uma prática comum daqueles que, por motivo ou outro, não quiseram ou puderam pôr a bunda na tribuna do José Pinheiro Borda à beira do Rio, não estivesse eu acompanhado de uma dupla de torcedores do rubro-negro paranaense.

Adriano Fernandes, 26 anos, e Carlos Ferronetti, 32, estão em Porto Alegre por motivos familiares e pessoais. Adriano reside aqui e cursa administração na PUC, nasceu em Santo Ângelo, é filho de mãe gaúcha e pai paranaense, o senhor Adalberto Fernandes, que lhe conferiu, por influência direta, a paixão pelo atlético dos paranaenses. “É uma maldição”, diz ele para meu riso, após garantir que estava brincando. “Antigamente íamos juntos no estádio com a torcida, o ingresso era mais barato, não tinha tanta confusão de organizada e pouco problema com a polícia. Hoje em dia parecemos ovelhas”, lamenta. “Quando eu era menor, tenho lembrança de ficar inclusive junto com os gremistas, eu, meu pai e meu tio. Mais contidos, claro, mas nunca deu problema”, conta. Na ocasião em questão, Adriano justificou a ausência não à má fase do time, que no início da oitava rodada, ponteava o brasileirão mas ao contrário, e sim ao monstro do fim do mês, que este jornalista chama de FINDOMÊNSOR, algo como um Mothra ou SATAN GOSS de antigamente.

Carlos Ferronetti, de cigarro em punho desde o início do encontro, mora em Curitiba e está na capital gaúcha “resolvendo missões”, afirma ele. “Não é nada profissional, tenho alguns encontros pra fazer e estou indo embora no fim de semana”. Ele jurou trabalhar com advocacia, não sou ninguém pra questionar, até pela irrelevância para essa pauta. Carlos é amigo (advogado?) da família (Corleone?) de Adriano, e por sorte, muita sorte, entrei em contato com este último através do imortal Orkut, na comunidade do Atlético Paranaense. Abri um tópico questionando se algum torcedor assistiria ao jogo na rua em Porto Alegre para obter três respostas, sendo duas de atleticanos que iriam ao estádio e uma preciosa, a de Adriano. “Foi sorte mesmo. Eu nem sabia se teria companhia pra ver o jogo em algum bar, achei que o Adriano poderia ter ido ao estádio ao estivesse na aula, aí eu ficaria em casa ouvindo a gauchada avacalhar meu time na rádio”, disse Carlos.

O local do encontro foi o bar Fábio’s, que até a final da Libertadores do ano passado se chamava Dolphin’s, ou estava inebriado demais para ter reparado na mudança de nome, na Mariante, exatamente na zona de comemoração das torcidas dos times de Porto Alegre. A cerveja cara (falei) e um Marlboro vermelho horrível temperaram o espetáculo oferecido pelos dois planteis sulinos, afora o frio de renguear. Ao nosso redor, mais três velhos colorados na parte interna, enquanto na parte externa, outras pessoas acompanhavam evento alheio sem relevância para este relato.

Durante o jogo, optei por não intervir com torcedorismos, para observar o que diabos pensam da vida esses adoradores do Paulo Rink do rubro-negro do Paraná. Confesso que antes lhes perguntei:

M: E aquela experiência com o Matthaus?

Adriano: Pf.

Carlos: Estão loucos. Está todo mundo muito louco. Os caras estão loucos.

Bem.

Paulo Baier cobra falta para cabeçada pertinente do zagueiro Manoel e defesa tranquila do arqueiro do Inter:

Adriano: Colorado já se encolheu nesse lance aí.

Carlos: O nosso time é assim ultimamente. É Paulo Baier bate e ou entra, ou alguém desvia e entra, e se não entra o azar é todo nosso, porque ninguém anda fazendo nada certo. Um dia o velho vai se aposentar, e aí? Vão trazer quem?

M: O Paulo Rink…

Carlos: Paulo Rink (risos). É bem capaz de acontecer isso mesmo.

Adriano: Vocês estão jogando com meio estádio?

M: É, estão magalizando o estádio para os turistas da copa.

Adriano: Sim, a Arena até hoje é meio estádio. Não sei se vai ficar pronto a tempo.

Carlos: No remendão é que a copa não vai ser!

Adriano: É, no remendão é que não vai. Mas eu nem sei se a Arena é sede, pra falar a verdade.

M: (fiz cara de paisagem porque também não sabia. Parece que não. Não sei.) Nunca vi time ser campeão com meio estádio.

Carlos: O Atlético foi campeão na Arena. É no mesmo lugar do estádio antigo. Foi inaugurado poucos anos antes.

Mais tarde conferindo, O nome oficial do estádio é Joaquim Américo Guimarães, e está sim, na lista das sedes da Copa do Mundo de 2014.

O Internacional criou um punhado de chances no primeiro tempo. O Atlético chegou na meta conforme o guru Carlos: com um escanteio.

Carlos: É impressionante esse Marcelo Oliveira, o cara deixou passar todas!

Adriano: Kleberson tá com a cabeça no Flamengo. Já jogou no Atlético, sentiu o bafo da Arena e garanto que quando puder vai voltar pro Flamengo.

Carlos: Chegou num ponto que os caras não querem mais jogar no Atlético. Não existe jogador assim. A diretoria não segura ninguém, não planeja nada. E eles também não querem. Não existe mais jogador assim, eles querem é aparecer na tv, mandar beijinho…

Carlos grunhia amarguras até que GOL do Internacional. Comemorei discreto, mas fui abafado pelos demais colorados no bar. Mas esperem aí, o juiz deu falta no goleiro.

Adriano: O time tem só uma jogada e ainda acontece isso.

Carlos: Não, olha ali. Trepou sim.

Adriano: É, trepou, trepou.

Trepou nada. Sátrapas. Que siga o jogo. Cleber Santana erra um passe simples no meio de campo.

Carlos: Mas é brincadeira, olha esse Cleber Santana, é refugo. O Atlético só contrata refugo! Não revela mais ninguém e quer ter time de refugo!

Adriano: O Madson também não tá jogando nada. Quem tinha que vir era o Jobson. Foi pro Bahia. A diretoria do Bahia tem mais visão que a do Atlético.

M: Jobson é um baita atacante.

Adriano: Baita atacante, ia ser ídolo. Hoje não temos nenhum! E deve ser barato ainda.

Apesar do amasso colorado (teve gol, juiz safado, e uma bola na trave), intervalo em zero. Aproveito para perguntar do DT Renato Gaúcho, recém saído de Porto Alegre direto para a casamata do Atlético. R$ 350 mil. Por mês.

Carlos: É uma alternativa. Eu preferia esperar o Carpeggiani… mas qualquer coisa vai ser melhor que o Adilson.

Adriano: Carpeggiani seria melhor.

M: (Aqui interfiri) Mas o Renato tem um perfil motivador, pode ser que arrume o time na base do grito mesmo pra sair dessa zona aviária aí.

Carlos: É, pode ser… o time do Atlético não é ruim. Não é pior que o do Avaí, ou o do Bahia…

Adriano: O Figueirense está bem! Eu não acredito que o Figueirense está melhor que o Atlético.

Carlos: A bem da verdade ainda é cedo. O coxinha mesmo, era a tal da sensação, está se desmantelando…

Adriano: O Coritiba é uma b…..

Recomeça o jogo. Lá pelas tantas, Índio quase faz de cabeça, de pé que não ia ser, não era o Victor no gol.

Adriano: Não, Atlético, não!

Carlos: É… temos que escapar dessa aí.

Bem quando me enfacerei dos atleticanos reconhecendo que o empate era o melhor possível, Paulo Baier quase me faz um gol olímpico, arrancando sons guturais dos amigos.

M: Já me caiu a casa por causa desse velho na Arena ano passado.

Adriano: Paulo Baier bate muito.

Carlos: Mas o problema é que ele já tem, sei lá, 38 anos, e continua sendo o cara do Atlético. Tem que aparecer alguém, sei lá, o filho dele, pra liderar esse time. O coxinha com um time mais ou menos chega seguido bem na Copa do Brasil e o Atlético nem isso.

Quase me compadeci. Damião arma salseiro pela esquerda e cruza. Oscar gol.

Carlos: É descenso, é time pra descenso. É brincadeira. Vamos lutar com o Avaí pelo descenso.

Mais alguns ataques para a agonia agora mais silenciosa e concentrada em cerveja dos atleticanos, e o Atlético combalido era derrotado no Beira-Rio por 1 a 0, em definitivo. Quatro cervejas e alguns cigarros depois, os paranaenses não me pareceram diferentes de colorados, ou flamenguistas ou cruzeirenses ou quem quer que seja. Nelson Rodrigues tem razão em afirmar que somos como soldadinhos, todos idênticos, querendo as mesmas coisas independente do time.

Adriano: Mas que m. São umas bichas.

Bicha é tua mãe.

Ainda perguntei se sabiam algo sobre o projeto Embaixador Furacão feito pelo clube, que hoje possui mais de 20 embaixadas em Estados brasileiros e inclusive no exterior, como na Inglaterra, por exemplo, aproximando os sócios e torcedores do Atlético e assistindo aos jogos em locais fixos. Segundo Adriano, não existe uma embaixada rubro-negra em Porto Alegre e sempre acompanhou as partidas em casa com a família ou até mesmo sozinho, quando não na presença de torcedores adversários dos times da capital ou meros observadores sem envolvimento no embate. Para ele, é difícil passar jogo do Atlético na televisão, e é mesmo.

 

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